Plataformas como Reddit e TikTok, aliadas à inteligência artificial, estão transformando a pesquisa sobre uso de substâncias, oferecendo visões inéditas sobre experiências que antes permaneciam invisíveis. Este novo paradigma permite a cientistas e pesquisadores acessar narrativas autênticas de milhões de pessoas, superando as limitações dos métodos tradicionais e aprofundando a compreensão sobre a dependência.

Historicamente, o estudo do uso e abuso de substâncias dependia majoritariamente de observações clínicas e questionários, alcançando apenas uma fração dos indivíduos. No Brasil, por exemplo, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) de 2023 estimou que cerca de 11,4 milhões de brasileiros já usaram cocaína ou crack.

Ainda segundo o LENAD III, 18,7% da população brasileira já experimentou substâncias psicoativas ilícitas alguma vez na vida. A maioria dessas pessoas não busca tratamento formal, constituindo uma “população oculta” que agora emerge no ambiente digital com riqueza de detalhes.

A explosão de conteúdo em redes sociais, onde usuários compartilham abertamente suas vivências com drogas, cria um repositório massivo de informações brutas. Para pesquisadores, como os mencionados pela Fast Company (www.fastcompany.com), essa riqueza de dados está remodelando a forma como se abordam questões complexas de uso de substâncias, vício e recuperação, especialmente ao desmistificar o estigma associado.

Redes sociais desvendam a “população oculta” do uso de substâncias

As plataformas digitais tornaram-se um campo fértil para a pesquisa sobre uso de substâncias. No Reddit, por exemplo, centenas de comunidades dedicadas a aspectos variados do uso de drogas — desde a química e farmacologia até o suporte à recuperação e estratégias de redução de danos — proliferam.

Nesses fóruns, os usuários discutem suas experiências com uma franqueza que raramente se vê em ambientes clínicos. Isso permite aos pesquisadores entender a estigmatização e os caminhos informais de busca por apoio [cite: 15, 16, 19, 23, from context]. A natureza anônima ou semi-anônima dessas interações online pode encorajar uma honestidade maior.

O TikTok, embora com desafios relacionados à desinformação sobre saúde mental, também oferece um vislumbre das narrativas e comportamentos. Vídeos curtos e testemunhos pessoais revelam desde o uso recreativo até lutas por sobriedade, permitindo identificar tendências e compreender o impacto social.

Muitos usuários com dependência não acessam serviços formais de saúde, tornando essas plataformas cruciais para capturar suas perspectivas [cite: 24, from context].

Além disso, o uso excessivo de redes sociais é associado a um aumento nos níveis de ansiedade e depressão. O Brasil é o terceiro país que mais consome mídias sociais no mundo.

A liberação de dopamina similar à de substâncias psicoativas também levanta questões sobre o próprio potencial viciante dessas plataformas, impactando a saúde mental dos jovens.

Inteligência artificial: análise de dados e desafios éticos

A vasta quantidade de dados gerada nas redes sociais seria inadministrável sem o auxílio da inteligência artificial (IA). Algoritmos avançados permitem processar e categorizar milhões de publicações, identificando padrões comportamentais, linguagem utilizada e sentimentos expressos [cite: 4, from context].

A IA não só acelera a análise, mas também possibilita a personalização de abordagens terapêuticas e o monitoramento do progresso de pacientes, oferecendo suporte emocional em tempo real através de chatbots.

O Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), lançado em 2025, ilustra a crescente importância da coleta de dados para subsidiar políticas públicas eficazes. Essa ferramenta centraliza informações para aprimorar as ações governamentais.

Contudo, a integração da IA na pesquisa e tratamento do uso de substâncias não está isenta de desafios éticos. Há preocupações legítimas sobre privacidade e segurança emocional.

O risco de desenvolver uma dependência excessiva da própria ferramenta de IA é real, especialmente para indivíduos com histórico de dependência emocional.

A disseminação de informações falsas em plataformas como o TikTok, onde um estudo revelou que mais da metade dos vídeos populares sobre saúde mental continha dados incorretos, também exige vigilância constante e estratégias de curadoria de conteúdo. O equilíbrio entre inovação e bem-estar do usuário é crucial.

A confluência de redes sociais e inteligência artificial está, sem dúvida, redefinindo a pesquisa sobre uso de substâncias. Ao prover acesso a experiências autênticas e dados em escala, essas ferramentas oferecem uma compreensão mais holística e menos estigmatizada do fenômeno.

O futuro exige que pesquisadores e formuladores de políticas públicas naveguem por esse cenário com cautela. É preciso aproveitar o potencial transformador da tecnologia para aprimorar o tratamento e a prevenção, ao mesmo tempo em que mitigam os riscos inerentes à privacidade, desinformação e novas formas de dependência digital.