Em 8 de janeiro de 2026, uma operação noturna dos Estados Unidos para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro marcou um ponto de inflexão na geopolítica global, desmantelando a percepção de uma ordem internacional estável e provocando um reexame das prioridades do Ocidente. A ação unilateral, que se desenrolou em Caracas, não apenas desencadeou uma onda de condenação internacional, mas também acendeu o debate sobre a soberania dos estados e o papel das grandes potências em um cenário multipolar emergente.
Este evento audacioso, liderado pelo governo do presidente Donald Trump, surge em um momento de profunda crise política e econômica na Venezuela, que se arrasta desde 2013 sob a liderança de Maduro. O país enfrenta hiperinflação, fome generalizada, aumento da criminalidade e um êxodo massivo de sua população, além de eleições controversas em 2024, que foram marcadas por alegações de fraude. A intervenção americana, justificada por alegações de envolvimento de Maduro com o narcotráfico, ignora o direito internacional e os princípios de não intervenção.
As relações entre Estados Unidos e Venezuela, historicamente complexas e marcadas pelos vastos recursos petrolíferos venezuelanos, deterioraram-se drasticamente desde a ascensão de Hugo Chávez em 1999, com sanções econômicas americanas intensificando a pressão sobre Caracas. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no final de 2025, já sinalizava uma postura mais assertiva no Hemisfério Ocidental, vendo ameaças como o narcotráfico e a migração irregular como justificativas para o uso preventivo da força.
A ruptura da ordem internacional e as reações globais
A incursão militar dos EUA na Venezuela é amplamente vista como uma ruptura significativa com a ordem internacional estabelecida desde 1945, violando diretamente a Carta das Nações Unidas que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. Enquanto alguns, como a Argentina, apoiaram a ação como um avanço no combate ao narcoterrorismo, a maioria da comunidade internacional, incluindo Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai, Espanha, China, Rússia e Irã, condenou veementemente a unilateralidade da medida.
O embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese, por exemplo, afirmou que a intervenção coloca em risco a estabilidade da América do Sul e evoca capítulos sombrios da história regional, reiterando o compromisso do Brasil com a paz e a não intervenção. A China e a Rússia, por sua vez, classificaram a ação como uma instrumentalização do direito internacional para fins hegemônicos, o que pode acelerar a transição para uma ordem global mais conflitiva e sem regras claras. Essa ação dos EUA enfraquece a credibilidade de instituições multilaterais como a ONU, que já luta para manter sua relevância em um mundo cada vez mais fragmentado.
Reconfigurando o futuro do Ocidente em um mundo multipolar
O economista Jim O’Neill, conhecido por cunhar o termo BRIC, já havia apontado a evolução do cenário global e a necessidade de o Ocidente abrir os olhos para o surgimento de novos blocos de poder, conforme mencionado em um artigo do Project Syndicate. A intervenção na Venezuela, neste contexto, serve como um catalisador para a redefinição das prioridades ocidentais. A busca por segurança e influência em um mundo onde a hegemonia americana é cada vez mais contestada leva a movimentos que, paradoxalmente, podem acelerar a polarização e o enfraquecimento das normas internacionais.
A resposta global à crise venezuelana e à ação dos EUA demonstra a complexidade de um sistema internacional em transição. O futuro do Ocidente, e de fato do mundo, dependerá da capacidade de seus líderes em navegar entre interesses nacionais e a necessidade de cooperação multilateral. A questão não é apenas como o mundo reagirá à Venezuela, mas como a Venezuela e as ações em seu território moldarão a próxima fase da ordem global, exigindo uma diplomacia mais matizada e um respeito renovado pelas normas que, por décadas, sustentaram a paz.









