A sensação acolhedora de um abraço vai muito além do mero conforto físico. Novas pesquisas em neurociência revelam que a percepção térmica, ou termocepção, desempenha um papel fundamental na forma como o cérebro processa o senso de corpo e regula as emoções, impactando diretamente o bem-estar mental. Esse entendimento abre portas para novas abordagens terapêuticas e tecnológicas.

Por muito tempo, a temperatura corporal foi vista como uma função fisiológica básica. No entanto, descobertas recentes desafiam essa visão, mostrando que o calor e o frio não apenas registram na pele, mas alteram a conexão que sentimos com nossos próprios corpos. Essas sensações térmicas são cruciais para a auto-percepção, influenciando de maneira surpreendente nossa identidade e saúde mental.

A revisão publicada em Trends in Cognitive Sciences, liderada pela Dra. Laura Crucianelli, da Queen Mary University of London, e pelo Professor Gerardo Salvato, da Universidade de Pavia, destaca a termocepção como um sentido central na autoconsciência corporal. Segundo informações do www.sciencedaily.com, o trabalho ressalta uma via subestimada pela qual o corpo se comunica com o cérebro, com implicações vastas para a terapia e tecnologia.

A complexa ligação entre calor, corpo e mente

A pesquisa demonstra que as pistas de temperatura influenciam a intensidade com que as pessoas sentem que seus corpos lhes pertencem. O calor, em particular, é um dos nossos sentidos mais antigos, servindo como um sinal primordial de proteção. Sentimos o calor no útero, nos primeiros cuidados e sempre que alguém nos abraça, o que é vital não só para a sobrevivência, mas para a formação da nossa identidade.

Essa conexão entre a termocepção e o sistema de regulação da temperatura corporal vai além do conforto. Ela sustenta a experiência emocional e a identidade pessoal. Abraços quentes são poderosos estimuladores da liberação de ocitocina, conhecida como o “hormônio do amor” ou “do carinho”, que promove vínculos afetivos, empatia e bem-estar.

A pressão física e a sensação de calor durante um abraço enviam sinais ao cérebro para liberar ocitocina, diminuindo os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e aumentando endorfinas e serotonina, que criam uma sensação geral de felicidade e satisfação. Isso acalma, reduz a ansiedade e fortalece o sistema imunológico, segundo estudos.

Implicações para a saúde mental e avanços terapêuticos

As alterações na consciência corporal são comuns em diversas condições de saúde mental, como transtornos alimentares, depressão, ansiedade e distúrbios relacionados a traumas. Indivíduos afetados podem sentir-se desconectados de seus próprios corpos, ou experimentar um enfraquecimento do senso de si.

Estudos clínicos envolvendo acidente vascular cerebral (AVC), anorexia nervosa e disforia de integridade corporal sugerem que problemas na percepção térmica podem ocorrer juntamente com interrupções na propriedade do corpo. Por exemplo, pacientes com AVC que apresentam alterações na regulação e percepção de temperatura podem não reconhecer partes do corpo como suas.

As implicações desta pesquisa se estendem para além do laboratório. Uma compreensão mais clara dos sinais térmicos pode ajudar na identificação de fatores que aumentam a vulnerabilidade a desafios de saúde mental e apoiar o desenvolvimento de novas terapias baseadas nos sentidos.

Aplicações potenciais incluem estratégias de reabilitação aprimoradas para pacientes neurológicos e designs de próteses que repliquem de forma mais natural as sensações táteis. Além disso, a pesquisa levanta questões importantes sobre como as mudanças climáticas e a exposição a temperaturas extremas podem afetar a consciência corporal e o pensamento.

A percepção de calor e frio é uma interação complexa entre corpo, mente e ambiente. Compreender como a temperatura molda a relação com nós mesmos pode oferecer insights valiosos sobre as mudanças de humor e o bem-estar psicológico em um mundo em constante aquecimento, apontando para um futuro onde o toque e o calor podem ser ferramentas terapêuticas mais valorizadas.