A União Europeia e o Mercosul finalmente concretizam um acordo comercial que, mais do que um pacto econômico, representa um triunfo diplomático para Bruxelas. Este marco, gestado ao longo de décadas, evidencia a resiliência da UE em gerir complexas diferenças políticas e resistências internas e externas, conforme apontado por Carlos Cuerpo, em artigo publicado no Project Syndicate.

O início das negociações em 1999 coincidiu com um período de otimismo global, marcado pela introdução do euro e a expansão da OTAN. A promessa de uma nova onda de democratização ecoava pelos continentes, pavimentando o caminho para uma ambição de integração comercial que parecia natural. No entanto, o percurso foi árduo, pontuado por impasses e ceticismo crescente.

A capacidade de impulsionar este acordo, mesmo diante de um cenário geopolítico fragmentado e de intensas pressões protecionistas, sinaliza uma renovada força da diplomacia europeia. Não se trata apenas de fluxos de mercadorias, mas da afirmação de um modelo de governança global que busca equilibrar interesses econômicos com padrões ambientais e sociais, criando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 780 milhões de pessoas e um quarto do PIB global.

Desafios e o triunfo da persistência

As negociações entre os blocos, iniciadas há 25 anos, foram marcadas por interrupções e oposição significativa. A França, por exemplo, demonstrou resistência inicial, enquanto a Itália mudou sua posição para apoiar o acordo após obter concessões para seus agricultores. Os agricultores europeus temiam o impacto de uma entrada massiva de produtos sul-americanos, como carne bovina, arroz e soja, no mercado da UE.

Para contornar os céticos, a Comissão Europeia implementou salvaguardas que podem suspender importações de produtos agrícolas sensíveis, além de reforçar controles de importação relacionados a resíduos de pesticidas. Este esforço diplomático culminou na aprovação do acordo pelo Conselho da União Europeia em 9 de janeiro de 2026, com a assinatura prevista para 17 de janeiro no Paraguai.

O acordo prevê a eliminação ou redução de mais de 90% das tarifas bilaterais. O Mercosul zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos. Estima-se que o comércio bilateral possa aumentar em 40%, gerando uma economia anual de até 4 bilhões de euros em direitos aduaneiros para a UE.

Implicações geopolíticas e a agenda verde

Além dos ganhos econômicos diretos, o Acordo UE-Mercosul possui uma relevância geopolítica estratégica. Em um cenário de fragmentação global, ele é visto como um contraponto à diplomacia de Washington e às políticas comerciais de Pequim, reforçando a autonomia estratégica da União Europeia. O ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, reconheceu a importância do acordo não apenas pelo seu peso econômico, mas também pelo seu significado geopolítico.

Um dos aspectos mais debatidos e cruciais do tratado são suas cláusulas ambientais. O acordo reafirma os compromissos com o Acordo de Paris e estabelece a cooperação em matéria climática, enfatizando a proteção de ecossistemas e o manejo sustentável dos recursos naturais. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva, celebrou a aprovação, destacando que o texto está alinhado à agenda ambiental brasileira.

No entanto, o capítulo ambiental tem sido alvo de críticas por sua aplicação, sendo considerado por alguns especialistas como frágil. Há preocupações de que, apesar dos compromissos, o acordo possa não coibir práticas como o desmatamento ilegal e a exportação de agrotóxicos proibidos na Europa para o Mercosul. A aprovação final do acordo ainda dependerá da ratificação pelos parlamentos nacionais dos países membros e pelo Parlamento Europeu.

O Acordo UE-Mercosul, embora resultado de um processo complexo e de compromissos mútuos, demonstra a capacidade da União Europeia de traduzir seus princípios em prática. Ao navegar pelas divergências internas e externas, o bloco europeu não apenas projeta um futuro de maior integração comercial, mas também reafirma seu papel como ator relevante na construção de uma ordem global mais interconectada e baseada em regras. Os desafios de implementação e a vigilância sobre as cláusulas ambientais serão cruciais para o sucesso duradouro deste pacto histórico.