O ex-diretor da aclamada franquia Assassin’s Creed, Alexandre Amancio, trouxe à tona um diagnóstico crítico sobre a atual crise no desenvolvimento AAA de jogos, propondo soluções inovadoras para reverter a estagnação criativa e os desafios de produção que afetam a indústria.

Durante sua apresentação na DevGAMM Lisbon em novembro, Amancio não hesitou em apontar as falhas do setor, que, segundo ele, vive as consequências de uma década de expansão excessiva, inchaço de estúdios e aversão a riscos. Ele enfatizou a desconexão crescente entre desenvolvedores e os jogos que criam, priorizando métricas e políticas internas em detrimento da originalidade e da excelência artesanal.

Com uma trajetória notável em produções de grande escala, incluindo a direção criativa de títulos como “Assassin’s Creed: Revelations” e “Assassin’s Creed: Unity” na Ubisoft, Amancio detém um conhecimento profundo sobre os bastidores da criação de jogos complexos, que envolvem centenas de profissionais. Sua perspectiva oferece um caminho para superar os desafios enfrentados por estúdios que buscam inovar e manter a qualidade em um mercado cada vez mais competitivo e demandante.

A crise, marcada por demissões em massa e uma percepção de estagnação criativa, exige uma reflexão profunda. Em entrevista ao GamesIndustry.biz, Amancio detalhou suas propostas para um futuro mais sustentável e criativamente recompensador para o desenvolvimento AAA.

A complexidade inerente e o inchaço das equipes

Amancio descreve a criação de um jogo como um “problema complexo” (wicked problem), uma categoria de desafios onde a multiplicidade de variáveis impossibilita determinar a eficiência ideal do processo ou o melhor resultado possível após a conclusão. Essa natureza intrínseca faz com que a busca por excelência e a superação de obstáculos sejam uma constante no desenvolvimento de jogos, independentemente do gênero ou da escala.

Contudo, ele questiona a necessidade de centenas de pessoas envolvidas em cada título, uma prática comum que, segundo ele, não é sustentável nem produtiva a longo prazo. Amancio aponta que a dinâmica de um grupo muda drasticamente ao ultrapassar a marca de cem pessoas. Acima desse número, a estrutura gerencial explode, criando a necessidade de coordenadores para coordenadores, gerando um ruído variável que estagna a eficiência.

“Adicionar pessoas a um problema estagna as pessoas que já estavam sendo eficientes”, observa Amancio em sua análise para o GamesIndustry.biz. Essa mentalidade de “jogar mais gente” em um gargalo, comum em muitos estúdios AAA no passado, provou-se contraproducente, diluindo a responsabilidade e dificultando a coordenação eficaz no desenvolvimento AAA.

Lições da indústria cinematográfica e equipes multifuncionais

Para o desenvolvimento AAA, Amancio sugere uma reestruturação baseada em equipes menores e mais coesas, inspirando-se no modelo consolidado da indústria cinematográfica. No cinema, equipes centrais (como diretores e produtores) montam grupos temporários e especializados para cada projeto, garantindo a formação ideal para as necessidades específicas da produção. Essa flexibilidade permite a alocação de talentos exatos para cada fase, evitando o inchaço permanente.

Ele vê a indústria de jogos como um híbrido peculiar, que, desde sua concepção, se tratou como parte do setor de software, mas precisa urgentemente aprender a integrar essa flexibilidade e o foco na produção criativa. A proposta de Amancio envolve a formação de “equipes locomotiva” – núcleos centrais que conduzem a visão do projeto – complementadas por terceirização ou co-desenvolvimento para demandas específicas, como arte, animação ou programação.

Essa abordagem permite montar a “equipe certa para o projeto certo, no momento certo”, otimizando recursos e promovendo a agilidade criativa. A inovação, que muitas vezes exige a construção de elementos “em andamento” e a descoberta de novas mecânicas de jogo, pode ser melhor gerida com essa estrutura adaptável, permitindo que o foco permaneça na qualidade e na originalidade, em vez da mera gestão de grandes contingentes de pessoal no desenvolvimento AAA.

A visão de Alexandre Amancio oferece um roteiro claro para a superação dos desafios no desenvolvimento AAA, enfatizando a necessidade de repensar as estruturas de produção e priorizar a criatividade sobre o gigantismo. Ao adotar modelos mais enxutos e estratégicos, a indústria de jogos pode reencontrar seu caminho para a inovação e a entrega de experiências memoráveis, garantindo um futuro mais sustentável para a produção de grandes títulos e para os profissionais envolvidos. É um chamado à ousadia e à reavaliação dos paradigmas que definiram o sucesso no passado.