A doença de Alzheimer, conhecida por seu efeito devastador na memória, pode ter um mecanismo surpreendente por trás da perda de recordações. Pesquisadores do Wu Tsai Neurosciences Institute da Universidade de Stanford descobriram que a condição pode “enganar” o cérebro, ativando um interruptor molecular que instrui os neurônios a remover suas próprias conexões, as sinapses. Esta revelação, publicada em janeiro de 2026 nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e divulgada no site ScienceDaily, redefine nossa compreensão sobre como a memória é apagada no Alzheimer e aponta para novas abordagens terapêuticas.

Tradicionalmente, a explicação dominante para a destruição de células cerebrais e suas conexões no Alzheimer foca no acúmulo de placas de proteína beta-amiloide. No entanto, a doença também tem sido associada a outros fatores, como proteínas tau, inflamação crônica e células imunes, como a micróglia. A nova pesquisa propõe uma ligação crucial entre duas das teorias mais proeminentes sobre o desenvolvimento do Alzheimer, unindo a ação da beta-amiloide e da inflamação em uma mesma via molecular.

Esta convergência sugere que os neurônios não são meras vítimas passivas do processo degenerativo; eles respondem ativamente a esses sinais, desencadeando a perda de sinapses. Compreender esta interação é vital, pois as sinapses são os pontos de contato que permitem que as células cerebrais se comuniquem, sendo essenciais para o armazenamento e a recuperação de memórias. A descoberta abre um novo caminho para proteger a memória, indo além dos tratamentos atuais focados apenas na quebra das placas amiloides.

Um interruptor molecular no cerne da perda de memória

O estudo, liderado pela afiliada do Wu Tsai Neurosciences Institute, Carla Shatz, e pela cientista Barbara Brott, aprofunda-se no papel de um receptor conhecido como LilrB2. Shatz, que estuda essa molécula há anos, já havia demonstrado em 2006 que a versão murina do LilrB2 é crucial para a poda sináptica, um processo normal no desenvolvimento cerebral e na aprendizagem adulta. Descobertas posteriores, em 2013, conectaram esse mesmo receptor ao Alzheimer, revelando que a beta-amiloide pode se ligar ao LilrB2, induzindo os neurônios a remover sinapses. Experimentos também mostraram que a remoção genética do receptor protegia camundongos da perda de memória em um modelo da doença de Alzheimer.

A pesquisa mais recente explorou a ligação com a inflamação cerebral, um fator de risco conhecido para o Alzheimer. O sistema imune, por meio da cascata do complemento, libera moléculas que ajudam a eliminar vírus e células danificadas. No entanto, estudos recentes têm associado essa cascata à poda sináptica excessiva e a distúrbios neurológicos. A equipe de Shatz testou se moléculas inflamatórias poderiam interagir com o LilrB2 de maneira semelhante à beta-amiloide. Apenas uma molécula, o fragmento proteico C4d, ligou-se fortemente o suficiente ao receptor para indicar um papel direto na perda de sinapses.

Para confirmar essa hipótese, os pesquisadores injetaram C4d diretamente no cérebro de camundongos saudáveis. Os resultados foram surpreendentes: o C4d “despojou as sinapses dos neurônios”, segundo Shatz, um efeito inesperado para uma molécula que antes se pensava não ter função alguma. Essas descobertas sugerem que tanto a beta-amiloide quanto a inflamação podem impulsionar a perda de sinapses através do mesmo mecanismo biológico.

Esta nova perspectiva pode levar a uma reavaliação de como o Alzheimer causa o declínio da memória. Há um conjunto de moléculas e vias que ligam a inflamação à perda de sinapses que talvez não tenham recebido a atenção devida. A identificação do receptor LilrB2 como um ponto de convergência para esses dois fatores-chave oferece uma promissora via para o desenvolvimento de novas terapias. Ao focar na proteção direta das sinapses e na modulação desse receptor, os cientistas esperam desenvolver tratamentos que possam preservar a memória de forma mais eficaz para milhões de pessoas afetadas pelo Alzheimer.