Após a segunda posse de Donald Trump, líderes da indústria de tecnologia como Sam Altman da OpenAI e Tim Cook da Apple adotaram uma postura de apaziguamento. Eles elogiaram o presidente ou evitaram críticas diretas, sinalizando uma aproximação.

Essa estratégia, que incluiu doações e visitas a Mar-a-Lago, agora enfrenta escrutínio à medida que as controvérsias da administração se intensificam, e a conta moral pode estar chegando para o setor.

A aproximação do Vale do Silício com Trump, já notada antes de seu retorno à Casa Branca, visava mitigar atritos e salvaguardar interesses corporativos em um cenário político volátil.

Contudo, a promessa de políticas controversas, como deportações em massa, levanta questionamentos sobre a sustentabilidade dessa neutralidade conveniente.

A expectativa era de que as políticas gerariam polêmica. No entanto, a escala do ataque às normas, ao estado de direito e à decência superou as previsões iniciais.

Eventos como a repressão do ICE em Minneapolis, a situação na Venezuela e na Groenlândia, e o direcionamento do Departamento de Justiça a figuras como James Comey, são exemplos do turbilhão que a indústria tech optou por não condenar abertamente, diferentemente de momentos da primeira gestão.

A estratégia de silêncio e seus primeiros custos

Enquanto na primeira administração Trump políticas como a separação de crianças na fronteira provocaram alguma angústia entre os executivos de tecnologia, o segundo mandato tem visto um silêncio ainda mais profundo. Não houve equivalente a um momento de clareza moral, por mais cauteloso que fosse, nos últimos anos.

O símbolo dessa relação de apaziguamento foi o troféu de vidro e ouro que Tim Cook entregou a Trump em uma coletiva de imprensa na Casa Branca em agosto.

Marc Benioff, CEO da Salesforce, foi um dos poucos a enfrentar séria reação negativa por sua postura amigável a Trump. Sua empresa, inclusive, buscou um contrato para ajudar o ICE a expandir suas operações.

Após expressar entusiasmo pela ideia de o presidente enviar tropas da Guarda Nacional a São Francisco, sua cidade natal, Benioff sofreu críticas intensas.

Ron Conway, um proeminente capitalista de risco, renunciou ao conselho da Salesforce Foundation em protesto contra os comentários de Benioff. O incidente levou o CEO a pedir desculpas públicas.

Esse episódio sublinha que, para algumas figuras da indústria e seus parceiros, há limites para a diplomacia política e o apaziguamento.

Implicações futuras e o dilema da responsabilidade

O cenário atual sugere que o custo de apaziguar uma administração volátil pode ser mais alto do que o esperado para a indústria de tecnologia. A complacência em face de controvérsias éticas e legais pode corroer a credibilidade das empresas.

A longo prazo, a ausência de “clareza moral” pode prejudicar a reputação de um setor que muitas vezes se posiciona como progressista e inovador. A confiança do público está em jogo.

À medida que a lista de eventos preocupantes cresce – de alegações de crimes de guerra a um aparente desdém pela democracia – a indústria de tecnologia se encontra em uma encruzilhada.

Manter o silêncio e a neutralidade calculada pode significar alienar uma parcela significativa de seus usuários e funcionários. Uma postura mais crítica, por sua vez, arrisca a inimizade de um governo poderoso.

O dilema é complexo. As decisões tomadas agora moldarão a percepção pública e o futuro regulatório da tecnologia, exigindo uma reflexão profunda sobre seus valores.

O apaziguamento da indústria de tecnologia com a administração Trump 2.0 revela uma tensão inerente entre interesses corporativos e responsabilidade social.

Embora a busca por estabilidade e acesso político seja compreensível, o custo de se alinhar ou permanecer em silêncio diante de ações controversas pode ser substancial.

A conta, que inclui reputação e valores éticos, parece estar se acumulando. O setor precisará reavaliar sua estratégia à medida que as implicações dessa aliança se tornam mais evidentes no cenário global.