As manifestações que eclodiram no Irã a partir do final de dezembro de 2025 são, em sua essência, um reflexo de profundas queixas econômicas. A desvalorização acentuada do rial, a moeda nacional, atuou como estopim, elevando drasticamente os preços e corroendo o poder de compra da população, especialmente em um cenário de inflação alimentar recorde. Este descontentamento se espalhou rapidamente de Teerã para diversas províncias, abarcando comerciantes, estudantes e a classe média.
Em dezembro de 2025, o rial iraniano atingiu mínimas históricas, chegando a cerca de 1,6 milhão por dólar americano no mercado aberto em janeiro de 2026. Esta queda abrupta acumulou uma desvalorização de aproximadamente metade do seu valor em 2025. Essa instabilidade monetária, que no Irã nunca é meramente uma questão técnica, impulsionou a inflação alimentar anual para 72% em dezembro de 2025, quase o dobro da média recente. A inflação geral do país superou os 40% no mesmo período.
Tais pressões econômicas têm sido um fardo contínuo para os iranianos, que enfrentam anos de instabilidade e veem suas economias e qualidade de vida deteriorarem-se progressivamente. A população se mostra cada vez mais impaciente com as promessas de reformas que, a curto prazo, tendem a agravar a situação, como apontado por Djavad Salehi-Isfahani em análise para o Project Syndicate.
A espiral da desvalorização e o impacto no custo de vida
A rápida desvalorização do rial tem implicações diretas e severas no cotidiano. Quando a moeda perde valor, os custos de importação disparam, impactando diretamente os preços de bens essenciais, como alimentos e medicamentos. Salários, muitas vezes definidos anualmente, não conseguem acompanhar essa escalada inflacionária, gerando uma perda real no poder de compra. O custo dos alimentos, por exemplo, aumentou 57,90% em setembro de 2025 em relação ao ano anterior.
A hiperinflação, que superou os 40% em 2025, encareceu alimentos, energia e bens essenciais para milhões de iranianos. Além da desvalorização da moeda, a crise é agravada por sanções ocidentais impostas desde 2018, relacionadas ao programa nuclear do país. A retomada de sanções da ONU em setembro de 2025 intensificou ainda mais a pressão econômica.
Sanções, má gestão e o clamor por mudança
As sanções internacionais, a má gestão econômica e a corrupção política são fatores que contribuem para a deterioração das condições de vida. Além disso, os protestos também refletem a frustração com os subsídios cortados, apagões energéticos e escassez de água. Inicialmente motivadas por questões econômicas, as manifestações rapidamente evoluíram para um movimento mais amplo que critica as prioridades do regime, incluindo gastos elevados com programas militares.
Slogans como “Pão, trabalho, liberdade” e “Nem Gaza, nem Líbano, dou minha vida pelo Irã” refletem a insatisfação com a política externa e o desejo por um foco maior nas necessidades internas. Analistas como Gissou Nia, advogada de direitos humanos, afirmam que, embora a crise econômica seja o catalisador, os manifestantes expressam um desejo profundo de mudança de regime. O professor Danny Zahreddine da PUC Minas também destaca que a crise econômica coloca o regime em risco.
A crise econômica no Irã, manifestada pela desvalorização do rial e pela inflação galopante, serve como um lembrete contundente de que a estabilidade política está intrinsecamente ligada à saúde financeira de uma nação. A menos que soluções eficazes e imediatas sejam encontradas para mitigar o sofrimento econômico da população, o Irã poderá continuar a ser palco de instabilidade social, com o governo enfrentando o desafio de restaurar a confiança e garantir a subsistência de seus cidadãos em um cenário de crescentes demandas por reformas mais amplas e duradouras.










