Ameaças de investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, por parte do ex-presidente Donald Trump, lançam uma sombra sobre a tradicional independência do Banco Central americano. O episódio, que escalou para uma ofensiva legal formal, coloca em risco a capacidade do Fed de conduzir a política monetária de forma autônoma, gerando instabilidade nos mercados financeiros e preocupações sobre a inflação global.

A autonomia do Fed é um pilar crucial para a estabilidade econômica dos Estados Unidos e, por extensão, do mundo. Desde sua criação em 1913, o sistema foi desenhado para isolar as decisões monetárias dos ciclos políticos de curto prazo, garantindo que o controle da inflação e o pleno emprego sejam os objetivos primários, livres de pressões eleitorais.

Historicamente, a interferência política no banco central, como observado na década de 1970 sob o governo Nixon, levou a picos inflacionários e instabilidade. Hoje, a ofensiva de Trump, que inclui a ameaça de indiciar Powell por declarações sobre um projeto de reforma da sede do Fed, é vista por muitos como um pretexto para influenciar a taxa de juros, que o ex-presidente defende ser reduzida significativamente.

A erosão da independência do Fed e seus impactos

O cerne da questão reside na possibilidade de a política monetária americana ser ditada por preferências políticas, e não por dados e condições econômicas. Jerome Powell, cujo mandato termina em maio, afirmou que a investigação criminal é uma consequência direta de o Fed definir as taxas de juros com base no interesse público, e não nas preferências presidenciais. Essa percepção de interferência já provoca reações nos mercados, com recuo em bolsas e dólar, e valorização de ativos de proteção.

A estrutura do Fed foi concebida para proteger sua autonomia, com governadores nomeados para mandatos escalonados de 14 anos e a instituição sendo autofinanciada. No entanto, a pressão contínua e as ameaças de Trump, que já se estenderam a outros dirigentes do banco, como Lisa Cook, demonstram uma escalada sem precedentes na história moderna dos EUA. Economistas e investidores globais valorizam a independência do Fed por sua capacidade de pensar nas ramificações de longo prazo da política monetária.

Consequências para a estabilidade global e o futuro da política monetária

A potencial politização do Federal Reserve levanta preocupações significativas sobre a estabilidade de preços e a credibilidade do dólar como moeda de reserva global. Se o mundo perceber que o banco central americano está sendo manipulado, o impacto pode ser imediato: fuga de capitais, alta nos juros e desvalorização do dólar. A incerteza sobre a independência do Fed já se sobrepõe a outros vetores macroeconômicos no curto prazo, e os riscos negativos para a moeda americana são substanciais caso haja qualquer indicação de maior determinação em interferir.

A comunidade financeira global, incluindo outros bancos centrais, tem se manifestado em apoio a Jerome Powell, defendendo a autonomia da instituição. A questão central, como notado por especialistas, é se o Fed continuará a basear suas decisões em evidências e condições econômicas, ou se a política monetária será guiada por pressão política e intimidação. A resposta a essa pergunta moldará não apenas o futuro da economia americana, mas também a arquitetura financeira global. Conforme destacado em uma análise do Project Syndicate, se Trump nomear um sucessor complacente, a política monetária pode se tornar mais frouxa do que o necessário, alimentando a inflação e minando a estabilidade econômica mundial.