Uma nova pesquisa sul-coreana revelou que bactérias comuns da boca, conhecidas por causar cáries, podem migrar para o intestino e, através de compostos produzidos, influenciar o cérebro, potencialmente desencadeando a doença de Parkinson. Publicado na Nature Communications, o estudo de 6 de janeiro de 2026, oferece uma perspectiva inovadora sobre a complexa relação entre saúde oral, intestinal e cerebral.
A investigação, liderada pelo Professor Ara Koh e a doutoranda Hyunji Park da POSTECH, em colaboração com a Universidade Sungkyunkwan e a Universidade Nacional de Seul, identificou um processo biológico detalhado. O achado sugere que a higiene bucal diária pode ter um papel ainda mais crítico na prevenção de doenças neurodegenerativas do que se imaginava, reforçando a conexão entre diferentes sistemas do corpo.
A doença de Parkinson é uma condição neurológica que afeta cerca de 1% a 2% da população mundial com mais de 65 anos, caracterizada por tremores, rigidez muscular e lentidão dos movimentos. Estudos anteriores já indicavam que a microbiota intestinal de pacientes com Parkinson difere da de indivíduos saudáveis, mas os microrganismos e metabolitos específicos envolvidos permaneciam incertos.
O papel da Streptococcus mutans no eixo intestino-cérebro
Os pesquisadores descobriram níveis elevados de <strong>Streptococcus mutans</strong> — uma bactéria oral comum, notoriamente associada a cáries dentárias — no microbioma intestinal de pacientes com Parkinson. Mais significativo, essa bactéria produz uma enzima chamada urocanato redutase (UrdA) e um subproduto metabólico conhecido como propionato de imidazol (ImP).
Ambas as substâncias foram encontradas em concentrações aumentadas no intestino e na corrente sanguínea dos pacientes. Evidências sugerem que o ImP pode viajar pela corrente sanguínea, atravessar a barreira hematoencefálica e atingir o cérebro, contribuindo para a perda de neurônios produtores de dopamina, essenciais para o controle motor.
Para aprofundar a compreensão desse mecanismo, a equipe realizou experimentos em modelos murinos. A introdução de <strong>S. mutans</strong> no intestino dos animais ou a modificação genética de <strong>E. coli</strong> para produzir UrdA resultou em aumento dos níveis de ImP no sangue e no tecido cerebral.
Os camundongos desenvolveram características associadas à doença de Parkinson, incluindo danos aos neurônios dopaminérgicos, inflamação cerebral, problemas motores e um maior acúmulo de alfa-sinucleína, uma proteína intimamente ligada à progressão da doença.
Implicações e o futuro dos tratamentos para Parkinson
Experimentos adicionais demonstraram que esses efeitos prejudiciais dependiam da ativação de um complexo proteico de sinalização chamado mTORC1. Quando os camundongos foram tratados com um medicamento que inibe o mTORC1, os pesquisadores observaram uma redução clara na inflamação cerebral, perda neuronal, acúmulo de alfa-sinucleína e problemas motores.
Esses resultados indicam que direcionar o microbioma oral-intestinal e os compostos que ele produz pode abrir novas vias para o tratamento da doença de Parkinson. “Nosso estudo oferece uma compreensão mecanística de como microrganismos da boca, ao se estabelecerem no intestino, podem influenciar o cérebro e contribuir para o surgimento do Parkinson”, afirmou o Professor Ara Koh.
A importância da <strong>saúde bucal</strong> na prevenção de doenças neurodegenerativas tem sido objeto de crescente atenção. Outros estudos já apontaram a ligação entre bactérias como a <strong>Porphyromonas gingivalis</strong>, associada à periodontite, e o desenvolvimento de Alzheimer, ressaltando o impacto sistêmico da saúde oral.
A modulação da microbiota intestinal, por meio de probióticos, prebióticos e até transplante de microbiota fecal, emerge como uma estratégia terapêutica promissora para diversas condições neurodegenerativas, incluindo o Parkinson.
Este avanço na compreensão da ligação entre bactérias bucais e a doença de Parkinson sublinha a necessidade de uma abordagem multidisciplinar para a saúde. Proteger a saúde oral e intestinal pode ser um passo fundamental para salvaguardar a saúde cerebral a longo prazo, oferecendo esperança para o desenvolvimento de terapias preventivas e modificadoras da doença.









