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A criação do sistema de blockchain em 2009 causou um forte impacto no sistema financeiro conhecido. As blockchains geraram tipos totalmente novos de governança, permitindo que muitas estruturas digitais funcionem de forma autônoma e descentralizada. Isso significa que eles não são controlados por uma única instituição, como um governo ou banco central, mas divididos entre uma variedade de computadores, redes e nós.

Em muitos casos, as criptomoedas usam esse status descentralizado para atingir níveis de privacidade e segurança que normalmente não estão disponíveis para as transações financeiras padrão. Inspirado pela descentralização de criptomoedas, em 2016 um grupo de desenvolvedores teve a ideia de uma Decentralized Autonomus Organization (Organização Autônoma Descentralizada, em português), mais comumente chamada pela sigla DAO.

Como funciona uma DAO?

De modo resumido, cada DAO é uma organização comandada por códigos e programas de computador. Por isso, consegue funcionar de forma autônoma, sem a necessidade de controle de uma autoridade central ou interferência humana. Pode-se dizer que as DAOs oferecem um sistema operacional para colaboração comunitária. Ela permite que indivíduos e instituições participem sem precisarem se conhecer ou confiar um no outro.

Esse grupo de pessoas interessadas cria smart contracts (contratos inteligentes) autônomos. Assim, uma DAO pode utilizar informações externas e executar comandos baseados nelas, de maneira totalmente autônoma. Normalmente, as DAOs são operadas por uma comunidade de partes interessadas.

Após a emissão dos contratos, há um período de financiamento onde as pessoas adquirem tokens que determinam a governança para fornecer os recursos necessários ao desenvolvimento. Assim, a DAO começa a funcionar e essas pessoas podem votar e aprovar futuras propostas.

Todas as regras e os registros de transações de uma DAO ficam registrados de forma transparente na blockchain. Essas regras são criadas pelos participantes ou stakeholders. Cada decisão é tomada através de propostas. Cada proposta é implementada após receber os votos da maioria dos participantes ou seja seguida alguma outra regra definida nas regras de consenso da rede.

Os desenvolvedores originais do sistema DAO acreditavam ser capazes de eliminar o erro humano ou a manipulação dos fundos dos investidores, colocando o poder de decisão nas mãos de um sistema automatizado e um processo de crowdsourcing. Esse é o conceito-chave de todo o sistema autônomo.

Por isso, nas DAOs não há hierarquia, como estrutura para gestão ou conselho de administração. Elas utilizam mecanismos econômicos para afinar os interesses da organização com os interesses de seus membros. Não estando veiculado a nenhum contrato formal, os membros de uma DAO operam baseados em um objetivo comum ou para obter os incentivos de rede segundo as regras de consenso. São regras conhecidas, descritas no software de código aberto que gerencia a organização autônoma.

Exemplos de DAOs

Numa simplificação, pode-se dizer que a primeira DAO foi o bitcoin, que funciona de maneira descentralizada, coordenada por um protocolo de consenso, sem hierarquia entre os participantes, tanto equipe de desenvolvimento quando sua rede de mineradores.

No protocolo Bitcoin há regras clara para seu funcionamento e os bitcoins extraídos incentivam os usuários a continuar na rede. Apesar dessa proximidade de conceito, todas as novas DAOs são lançadas na blockchain Ethereum.

A moeda digital DASH é um bom exemplo de organização autônoma descentralizada devido à forma como é governada e a estrutura do seu sistema orçamentário.

Possíveis utilidades de DAOs

DAOs mais complexas podem ser implantadas para diferentes usos, como governança de token, fundos de risco descentralizados ou plataformas de redes sociais. As DAOs também podem coordenar a operação de dispositivos conectados à Internet das Coisas (IoT).

Além disso, essas inovações introduziram um subconjunto de DAOs, conhecidas como Corporações Autônomas Descentralizadas (DACs). Uma DAC pode fornecer serviços semelhantes a uma empresa tradicional, por exemplo, um serviço de caronas compartilhadas. A diferença é que ele funciona sem a estrutura de governança corporativa encontrada nos negócios tradicionais.

Por exemplo, um carro robô que é dono de si próprio e fornece serviços de compartilhamento de carona como parte de uma DAC, poderia operar de forma autônoma, realizando transações com seres humanos e outros dispositivos. Com o uso de oráculos blockchain, ele pode até acionar contratos inteligentes e executar determinadas tarefas por conta própria, como ir ao mecânico.

Críticas ao DAO

Como uma tecnologia nova, existem muitas preocupações com legalidade, segurança e estrutura. Em algumas ocasiões analistas e investidores afirmaram que esse tipo de organização emergente pode se aprimorar e, eventualmente, até substituir as atuais estruturas de negócios.

Embora haja vantagens, também há muitos questionamentos sobre as DAOs. Os principais temas são:

Legalidade

O ordenamento jurídico seria uma das principais barreiras enfrentadas por uma Organização Autônoma Descentralizada. Por exemplo, no Brasil toda empresa é registrada em nome de uma pessoa ou grupo de pessoas, que respondem por ela perante a lei.

Nessas organizações autônomas não haveria ninguém que prestasse contas à justiça em caso de alguma operação contrariasse as leis do país. Não havendo representante, em caso de culpa, ninguém seria punido.

Segurança

Como o código de uma DAO fica visível a todos os usuários, caso identifique-se alguma falha, a segurança pode ser comprometida por algum membro mal-intencionado. Se explorada, acaba gerando prejuízos a todo o projeto.

As questões de segurança estão diretamente ligadas à influenciada utilizada para as negociações. Não é incomum que sejam identificadas falhas de programação em softwares, que resultam em prejuízos.

Processo de decisões

O processo democrático ao extremo, que permite que os rumos de um projeto fiquem por conta de um acordo entre todos os membros é complexo. Se apenas um dos membros não consentir, a organização autônoma identifica essa opinião e começa a busca por um consenso.

Caso isso ocorra com frequência, acabará atrasando qualquer tomada de decisão que afetará o andamento do projeto em si. A busca contínua pelo consenso em alguns casos pode tornar a coisa toda lenta.

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