Cientistas da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) anunciaram uma descoberta que pode redefinir o futuro da terapia celular câncer, um avanço crucial para tornar esses tratamentos mais acessíveis e amplamente disponíveis. Pela primeira vez, eles conseguiram cultivar de forma consistente as vitais células T auxiliares a partir de células-tronco em ambiente laboratorial controlado, conforme detalhado em um estudo publicado em 7 de janeiro na revista Cell Stem Cell.
Essa inovação remove uma barreira significativa que vinha limitando o desenvolvimento e a produção em larga escala de terapias celulares, como as que empregam células CAR-T. Tais tratamentos, embora revolucionários para pacientes com cânceres antes intratáveis, enfrentam desafios consideráveis de custo e complexidade logística. A capacidade de gerar um componente tão essencial do sistema imunológico de uma fonte renovável abre portas para uma nova geração de “medicamentos vivos” prontos para uso.
As terapias celulares atuais, notadamente a terapia CAR-T, dependem da coleta e modificação das próprias células imunes do paciente, um processo que pode levar semanas e é extremamente caro, com valores que superam os US$ 400.000 por tratamento em alguns casos. A pesquisa da UBC oferece uma solução para a fabricação personalizada, propondo um modelo onde as células poderiam ser produzidas em massa a partir de células-tronco, reduzindo custos e tempo de espera.
Superando o desafio das células T auxiliares
O sucesso das terapias celulares contra o câncer, como as CAR-T, reside na ação sinérgica de dois tipos de células T: as células T assassinas, que atacam diretamente as células cancerígenas, e as células T auxiliares, que coordenam e sustentam a resposta imune. Enquanto a produção de células T assassinas a partir de células-tronco já havia sido alcançada, a geração confiável de células T auxiliares permaneceu um entrave.
A equipe da UBC, incluindo a coautora sênior Dra. Megan Levings, professora de cirurgia e engenharia biomédica, e o Dr. Ross Jones, pesquisador associado, desvendou como ajustar precisamente os sinais biológicos que guiam o desenvolvimento das células-tronco. Eles descobriram que um sinal de desenvolvimento conhecido como Notch é crucial no início do processo, mas, se permanecer ativo por muito tempo, impede a formação das células T auxiliares.
Ao “sintonizar” cuidadosamente o momento e a intensidade da redução desse sinal, os cientistas conseguiram direcionar as células-tronco para se tornarem tanto células T auxiliares quanto células T assassinas. Essa precisão é um passo fundamental para a fabricação em ambiente de laboratório, com potencial para aplicação direta na produção em escala industrial, conforme destacado pelo Dr. Peter Zandstra, professor e diretor da Escola de Engenharia Biomédica da UBC.
O impacto na acessibilidade da terapia celular câncer
A capacidade de criar células T auxiliares funcionais a partir de células-tronco significa que a imunoterapia contra o câncer pode se tornar “pronta para uso”. Isso eliminaria a necessidade de extrair e modificar as células de cada paciente individualmente, um processo caro e demorado que limita o acesso global.
A produção em larga escala de células T auxiliares e assassinas a partir de uma fonte renovável de células-tronco poderia diminuir drasticamente os custos e o tempo de espera, tornando a terapia celular câncer uma opção viável para um número muito maior de pacientes em todo o mundo. Este avanço é particularmente relevante em contextos como o brasileiro, onde a terapia CAR-T ainda enfrenta barreiras financeiras e estruturais significativas, com custos médios de R$ 3 milhões por tratamento e desafios regulatórios.
A pesquisa da UBC não apenas valida a funcionalidade das células T auxiliares cultivadas em laboratório, mas também estabelece uma base tecnológica para testar o papel dessas células no combate ao câncer e desenvolver novas terapias derivadas delas. Este é um passo decisivo em direção a uma medicina mais equitativa e eficaz, onde tratamentos de ponta para o câncer possam alcançar quem mais precisa, de forma mais rápida e acessível.










