Pesquisadores da Meijo University e Chulalongkorn University, na Tailândia, identificaram um composto natural em cianobactérias de fontes termais capaz de bloquear a radiação UV e neutralizar radicais livres. Esta descoberta, publicada em dezembro de 2025, sugere um avanço significativo na busca por um protetor solar natural mais seguro e ecologicamente correto, oferecendo uma alternativa promissora aos produtos químicos convencionais.

A crescente preocupação com a exposição aos raios ultravioleta (UV) e o aumento nas taxas de câncer de pele impulsionam a ciência a buscar soluções mais eficazes e menos agressivas. Anualmente, entre 2 e 3 milhões de casos de câncer de pele não melanoma e 132 mil casos de melanoma são registrados globalmente, com projeções de aumento significativo até 2040.

Enquanto os filtros solares tradicionais cumprem seu papel protetor, eles frequentemente geram reações alérgicas e levantam questionamentos sobre seu impacto ambiental. Nesse contexto, os aminoácidos tipo micosporina (MAAs) surgem como candidatos promissores, conhecidos por sua capacidade de absorver UV e por serem biocompatíveis, presentes em diversos organismos expostos a alta irradiação solar. Para saber mais sobre a química e biologia dos MAAs, confira este artigo de revisão do NIH.

A descoberta de um composto único em bactérias extremófilas

O estudo, liderado pelos professores Hakuto Kageyama da Meijo University e Rungaroon Waditee-Sirisattha da Chulalongkorn University, focou em cianobactérias termofílicas coletadas das fontes termais de Bo Khlueng, na província de Ratchaburi, Tailândia. A equipe isolou oito cepas de bactérias tolerantes ao calor.

Uma das cepas, identificada como Gloeocapsa species BRSZ, produziu um composto inédito que absorve UV quando exposta a raios UV-A e UV-B. Esse composto foi nomeado β-glucose-bound hydroxy mycosporine-sarcosine (GlcHMS326). Sua estrutura molecular é notável por passar por três modificações químicas distintas: glicosilação, hidroxilação e metilação, características não antes relatadas em MAAs derivados de cianobactérias.

A produção do GlcHMS326 é significativamente intensificada sob estresse de radiação UV e alta salinidade, embora não seja desencadeada pelo calor. Análises genéticas revelaram um conjunto único de genes nas cianobactérias, associado a essas alterações químicas. A metilação, por exemplo, é conhecida por melhorar a estabilidade, absorção de UV e atividade antioxidante dos compostos MAA.

O potencial para uma nova geração de protetores solares

A singularidade do GlcHMS326 reside não apenas em sua capacidade de bloquear eficazmente a radiação UV, mas também em seu poder antioxidante, neutralizando os radicais livres prejudiciais induzidos pelo estresse. Essa dupla ação o diferencia de muitos protetores solares convencionais, que focam primariamente na absorção ou reflexão da luz UV. A biocompatibilidade dos MAAs os torna ideais para uso humano.

A descoberta abre portas para a biotecnologia industrial, visando a produção em larga escala de ingredientes naturais para filtros solares. A compreensão dos mecanismos de biossíntese responsivos ao estresse em cianobactérias extremófilas pode acelerar o desenvolvimento de pigmentos naturais e antioxidantes, alinhando-se à crescente demanda por produtos de cuidado da pele que sejam seguros para as pessoas e o meio ambiente.

O estudo, disponível online desde 1º de dezembro de 2025 e publicado na revista Science of The Total Environment, Volume 1009, ressalta a importância de explorar a biodiversidade de ambientes extremos. Esses ecossistemas, muitas vezes negligenciados, podem guardar soluções inovadoras para desafios globais, como a proteção solar sustentável e a saúde da pele.

A identificação do GlcHMS326 representa mais do que uma mera curiosidade científica; ela aponta para um futuro onde a proteção solar pode ser intrinsecamente ligada à sustentabilidade e à saúde ambiental. À medida que a pesquisa avança, é possível que esses “protetores solares microbianos” se tornem a base para formulações que não apenas protejam nossa pele, mas também preservem os ecossistemas marinhos, frequentemente ameaçados por componentes de filtros solares químicos.