A La Liga, principal liga de futebol da Espanha, está em uma intensa batalha legal contra a Cloudflare, gigante de infraestrutura de internet, acusando-a de ser cúmplice na disseminação de conteúdo pirata de seus jogos. Este confronto digital expõe uma complexa disputa sobre direitos autorais e a liberdade da internet, com repercussões significativas para a indústria do esporte e o futuro do streaming online.

A liga espanhola, reconhecida por sua postura proativa contra a pirataria, emprega uma equipe de 50 analistas para rastrear transmissões ilegais de partidas em diversas plataformas. Ao identificar conteúdo pirata, a La Liga notifica intermediários da internet, como a Cloudflare, cujo papel crucial na gestão de cerca de 20% do tráfego global da internet a coloca no centro desta controvérsia. Conforme reportado pela Fast Company, a proteção de seus direitos audiovisuais é vital para a La Liga, que recentemente negociou os direitos de transmissão doméstica por mais de 6 bilhões de euros até a temporada 2031-32.

Este embate não se limita à Espanha; a Cloudflare enfrenta desafios legais semelhantes em países como Itália, França, Alemanha e Japão, evidenciando a natureza global da disputa sobre pirataria digital. A questão central gira em torno da responsabilidade dos provedores de serviços de internet na moderação de conteúdo, um debate que opõe os interesses comerciais e a sustentabilidade das indústrias criativas à defesa de uma internet livre e aberta.

O embate entre direitos autorais e liberdade na rede

O presidente da La Liga, Javier Tebas, expressou à Associated Press que a Cloudflare está “plenamente ciente de que uma parcela significativa da pirataria audiovisual esportiva depende de sua infraestrutura” e, mesmo assim, continua a “proteger e monetizar essa atividade”. Tebas detalha que, somente na Espanha, mais de 35% da pirataria de conteúdo da La Liga ainda é distribuída pela infraestrutura da Cloudflare, apesar de milhares de notificações formais e medidas judiciais implementadas por outros provedores de serviços de internet. Ele argumenta que a empresa prioriza seus “interesses comerciais e ganhos financeiros sobre a lei”, utilizando seus clientes como um “escudo digital para redes de pirataria organizada”.

Por outro lado, a Cloudflare, que se autodenomina uma “campeã de longa data de uma internet livre e aberta”, nega qualquer irregularidade. A empresa acusa a La Liga de tentar controlar o que os usuários espanhóis podem ver online durante os jogos, alegando que as “práticas de bloqueio indiscriminado” da liga impediram o acesso de dezenas de milhares de sites legítimos. A Cloudflare sustenta que os interesses comerciais da La Liga não podem “superar o direito dos usuários espanhóis comuns de navegar em sites lícitos”. A companhia incentiva os usuários a reportar bloqueios indevidos e a se manifestar contra a “censura na internet”.

Implicações legais e a busca por soluções globais

A La Liga tem obtido sucesso em decisões judiciais contra a pirataria na Espanha, que também impactam a Cloudflare, embora ainda não consiga fazer com que a empresa bloqueie todo o conteúdo ilegal internacionalmente. A Cloudflare, por sua vez, tem recorrido dessas decisões, buscando demonstrar que as “práticas de bloqueio excessivo da La Liga são ilegais”. A empresa também afirma estar engajada com políticos, reguladores e a sociedade civil para encontrar soluções colaborativas que combatam o streaming ilegal sem impedir o acesso de milhões de usuários espanhóis à internet. Contudo, a Cloudflare tem mostrado um aumento significativo em ações antipirataria, com um crescimento de 3800% e a remoção de mais de 20 mil contas no primeiro semestre de 2025, impulsionado por novas ferramentas automatizadas.

A colaboração é um ponto de discórdia. Enquanto a La Liga destaca parcerias com outros intermediários, como Google, Amazon e YouTube, e até mesmo com o Mercado Livre na América Latina, ela afirma que a Cloudflare rejeitou esforços semelhantes de colaboração. A Cloudflare, por sua vez, afirma trabalhar regularmente com detentores de direitos para resolver problemas de streaming ilegal, mas acusa a La Liga de “não ter demonstrado interesse neste tipo de colaboração”. Ambas as partes buscaram apoio governamental. A Cloudflare informou ao Representante de Comércio dos EUA que as ações de países estrangeiros constituem barreiras comerciais digitais, enquanto a La Liga reclamou à Comissão Europeia e ao USTR sobre as práticas da Cloudflare, apontando-a como o principal facilitador de transmissões não autorizadas.

Este confronto entre Cloudflare e La Liga transcende a mera disputa por direitos autorais, revelando as tensões inerentes à era digital sobre controle de conteúdo, responsabilidade de intermediários e a defesa da liberdade na internet. À medida que as tecnologias de streaming evoluem e a pirataria se adapta, o desfecho desta batalha legal e política poderá estabelecer precedentes importantes para a proteção de conteúdo em escala global. A busca por um equilíbrio entre a salvaguarda dos investimentos na produção de conteúdo e a garantia de um acesso irrestrito e legal à informação online permanece um desafio central para legisladores, empresas de tecnologia e detentores de direitos em todo o mundo.