Uma recente pesquisa francesa, divulgada em 27 de janeiro de 2026 por ScienceDaily, levanta preocupações significativas sobre a segurança de aditivos comumente usados na indústria alimentícia. O estudo sugere que o consumo elevado de certos conservantes em alimentos e bebidas processados pode estar associado a um aumento modesto no risco de desenvolver câncer, incluindo tipos específicos como os de mama e próstata.
Os resultados, publicados pelo The BMJ, colocam em xeque as regulamentações atuais sobre aditivos alimentares e impulsionam um debate necessário sobre a reavaliação dos padrões de segurança para proteger a saúde pública. Embora a pesquisa seja observacional, ela adiciona uma camada importante de evidências ao crescente corpo de conhecimento sobre o impacto da dieta na saúde a longo prazo.
A discussão sobre os conservantes alimentares não é nova. Essas substâncias são incorporadas a produtos industrializados para prolongar a vida útil e prevenir a deterioração, mas sua presença tem sido alvo de escrutínio. Pesquisas laboratoriais anteriores já indicavam que alguns aditivos poderiam causar danos celulares e ao DNA. Contudo, faltavam estudos de longo prazo em humanos para correlacionar diretamente esses aditivos ao risco de câncer, lacuna que esta nova análise tenta preencher.
O estudo francês e os aditivos sob escrutínio
A investigação, que acompanhou mais de 100 mil participantes do coorte NutriNet-Santé, com idade superior a 15 anos, entre 2009 e 2023, representa um dos maiores esforços para compreender a relação entre conservantes alimentares e câncer. Os participantes, inicialmente livres da doença, forneceram registros dietéticos detalhados por um período médio de 7,5 anos, permitindo aos pesquisadores uma análise aprofundada da exposição a 17 conservantes individuais.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, assim como outras agências reguladoras globais, estabelece quais aditivos são permitidos e em que quantidades, baseando-se em avaliações toxicológicas e recomendações de comitês de especialistas, como o JECFA (Comitê Conjunto FAO/OMS de Especialistas em Aditivos Alimentares). A legislação brasileira sobre aditivos alimentares é positiva, ou seja, um aditivo só pode ser utilizado se estiver explicitamente definido em legislação específica para a categoria de alimento.
Preservativos específicos e riscos elevados
Durante o período de acompanhamento, 4.226 participantes foram diagnosticados com câncer, incluindo 1.208 casos de câncer de mama e 508 de próstata. Embora não tenha sido encontrada uma ligação geral para todos os conservantes combinados, a análise individual revelou associações preocupantes com vários aditivos. Entre eles, destacam-se o sorbato de potássio, sulfitos totais, nitrito de sódio, nitrato de potássio e ácido acético.
O estudo apontou que o consumo de sorbatos totais, especialmente o sorbato de potássio, foi associado a um risco 14% maior de câncer geral e 26% maior de câncer de mama. Já os sulfitos totais foram ligados a um aumento de 12% no risco geral de câncer. O nitrito de sódio demonstrou uma associação com um risco 32% maior de câncer de próstata, enquanto o nitrato de potássio foi associado a um risco 13% maior de câncer geral e 22% maior de câncer de mama. Os acetatos totais também foram associados a um risco 15% maior de câncer geral e 25% maior de câncer de mama, com o ácido acético isoladamente ligado a um aumento de 12% no risco geral de câncer. Entre os antioxidantes, apenas os eritorbatos totais e o eritorbato de sódio foram associados a uma maior incidência de câncer.
Os pesquisadores sugerem que esses conservantes podem influenciar a função imunológica e a inflamação, fatores que podem contribuir para o desenvolvimento do câncer. É crucial ressaltar que, por ser um estudo observacional, ele não estabelece uma relação de causa e efeito direta. No entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora e atualiza constantemente a legislação sobre aditivos, como a Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) n. 778/2023 e a Instrução Normativa (IN) n. 211/2023, sempre com foco na proteção da saúde pública.
Os resultados deste estudo francês reforçam a necessidade de uma vigilância contínua sobre os aditivos alimentares e suas implicações para a saúde. Enquanto a ciência avança na compreensão dessas complexas relações, os consumidores são encorajados a fazer escolhas alimentares informadas, optando por alimentos menos processados e consultando as informações nutricionais disponíveis. A discussão sobre a reavaliação das normas de segurança para conservantes provavelmente ganhará força nos próximos anos, impulsionando a indústria e os órgãos reguladores a buscarem alternativas mais seguras para a preservação de alimentos.










