A operação do governo dos EUA na Venezuela, que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa sob acusações de narcoterrorismo, desencadeou uma onda de desinformação online, com deepfakes e conteúdo gerado por inteligência artificial (IA) ganhando tração. Em momentos de turbulência política, onde os fatos ainda estão se desenrolando e o futuro é incerto, a IA generativa se torna uma ferramenta poderosa para preencher lacunas com narrativas que as pessoas desejam acreditar. Este fenômeno foi detalhado em uma reportagem da Fast Company, publicada em 6 de janeiro de 2026.
A situação na Venezuela, com a prisão de Maduro e a subsequente incerteza sobre a liderança do país — com declarações conflitantes de figuras como Donald Trump e Marco Rubio sobre quem governará — criou um terreno fértil para a proliferação de conteúdo falso. Vídeos de IA, desde representações satíricas de Maduro algemado em um avião militar até imagens de multidões geradas por IA que enganaram até mesmo o CEO do X, Elon Musk, inundaram as redes sociais, tornando a distinção entre o real e o fabricado cada vez mais tênue.
A ascensão dos deepfakes em cenários turbulentos
O aumento de conteúdo deepfake relacionado à Venezuela é um sintoma alarmante da facilidade com que a IA pode ser usada para manipular a percepção pública. Ben Colman, cofundador e CEO da Reality Defender, uma empresa especializada em rastrear deepfakes, observou um pico no volume de conteúdo falso ligado ao evento venezuelano. Segundo Colman, as narrativas abrangem um espectro amplo, desde visões nacionalistas e antigoverno até pró-Venezuela e pró-EUA, evidenciando a polarização e a fragmentação do cenário informativo.
O grande desafio, conforme explica Colman, reside no avanço exponencial dos modelos de imagem de IA. Eles se tornaram tão sofisticados que mesmo os verificadores de fatos mais astutos e especialistas em verificação de mídia são incapazes de identificar manualmente a autenticidade de muitos desses conteúdos. “Essa batalha (da verificação visual manual) está praticamente perdida”, afirmou Colman à Fast Company, sublinhando a urgência de novas abordagens para combater a desinformação. Esse cenário é agravado pela restrição à imprensa convencional, o que aumenta a confusão e a desconfiança da população, conforme apontado pelo Jornal Diário do Povo.
Desafios na detecção e o futuro da verdade digital
A proliferação de deepfakes não é exclusiva da Venezuela. Relatórios recentes, como o “Identity Fraud Report 2025-2026” da Sumsubs, indicam um crescimento de 126% nos ataques com essa tecnologia no Brasil em 2025, com potencial de influenciar as eleições de 2026. A capacidade da IA de forjar rostos, vozes, vídeos e documentos representa um risco significativo para a integridade dos processos democráticos e a confiança nas informações. A exemplo disso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no Brasil tem ampliado seus mecanismos de enfrentamento à desinformação, incluindo a exigência de rotulagem de conteúdos sintéticos.
Diante desse panorama, a resposta das plataformas e governos é crucial. Empresas como a OpenAI afirmam estar monitorando o uso de seus produtos em situações como a da Venezuela e prometem agir em caso de violações de suas políticas de uso. No entanto, a eficácia dessas medidas ainda está sob escrutínio, especialmente quando a tecnologia de deepfake supera a capacidade de detecção humana e, por vezes, até mesmo de ferramentas automatizadas. A necessidade de uma legislação abrangente e de uma consciência pública elevada sobre os riscos da IA na manipulação de informações é mais premente do que nunca.
A crise na Venezuela serve como um lembrete contundente de que, em meio ao caos político, a inteligência artificial pode se tornar uma ferramenta poderosa para a desinformação. O desafio não é apenas identificar o que é falso, mas também construir resiliência informacional em sociedades cada vez mais polarizadas e digitalmente saturadas. A verdade digital se tornará um campo de batalha constante, exigindo vigilância contínua e inovação tanto em tecnologia quanto em educação cívica para proteger a democracia e a integridade da informação.






