Milhões de idosos com demência no Brasil e no mundo continuam a receber prescrições de medicamentos associados a um aumento significativo de quedas e estados de confusão.
Mesmo após anos de alertas e diretrizes médicas, uma pesquisa recente, publicada em 12 de janeiro no periódico revisado por pares JAMA, destaca que cerca de um em cada quatro beneficiários do Medicare com demência ainda utiliza essas substâncias, levantando graves questões sobre a segurança do tratamento.
Essa prática persiste apesar de recomendações de cautela por parte da comunidade médica, que há tempos aponta os riscos de medicamentos que alteram o sistema nervoso central em pacientes com fragilidade cognitiva.
Os efeitos adversos podem incluir não apenas quedas perigosas e desorientação, mas também hospitalizações frequentes, impactando drasticamente a qualidade de vida desses indivíduos vulneráveis.
Embora tenha havido uma redução geral no uso desses fármacos na população idosa, o problema se mostra mais acentuado entre aqueles com comprometimento cognitivo.
Em muitos casos, a pesquisa revela uma ausência de justificativa médica documentada para tais prescrições, o que sublinha a necessidade urgente de revisão dos protocolos de cuidado e maior atenção à segurança medicamentosa.
Padrões de prescrição preocupantes entre idosos
Para compreender melhor os padrões de prescrição, pesquisadores analisaram dados do Health and Retirement Study, vinculados a reivindicações de serviços do Medicare, monitorando o uso de medicamentos do sistema nervoso central (SNC) entre 2013 e 2021.
O estudo, conforme reportado pelo portal ScienceDaily, categorizou os idosos em três grupos: com cognição normal, com comprometimento cognitivo sem demência e com demência.
A análise focou em cinco classes de medicamentos ativos no SNC: antidepressivos com fortes propriedades anticolinérgicas, antipsicóticos, barbitúricos, benzodiazepínicos e hipnóticos não benzodiazepínicos.
Os resultados mostraram que, embora o uso geral tenha diminuído de 20% para 16% no período estudado, a taxa de prescrição permaneceu mais alta em pacientes com demência, atingindo cerca de 25%.
Em contraste, 17% dos idosos com cognição normal e quase 22% dos que tinham comprometimento cognitivo sem demência receberam essas medicações.
Dr. John N. Mafi, professor associado de medicina da UCLA e autor sênior do estudo, salientou que mais de dois terços dos pacientes que receberam essas prescrições em 2021 não tinham uma indicação clínica documentada.
Isso sugere um alto nível de prescrição potencialmente inadequada e prejudicial, especialmente para uma população já fragilizada.
As tendências de prescrição também variaram por tipo de medicamento. Houve uma queda no uso de benzodiazepínicos (de 11,4% para 9,1%) e de hipnóticos não benzodiazepínicos (de 7,4% para 2,9%).
Contudo, as prescrições de antipsicóticos aumentaram de 2,6% para 3,6%, enquanto os antidepressivos anticolinérgicos mantiveram-se estáveis em 2,6% e os barbitúricos tiveram uma leve queda.
Desafios persistentes na segurança medicamentosa
Apesar da redução na prescrição de alguns tipos de medicamentos, especialmente benzodiazepínicos e hipnóticos, o cenário ainda exige atenção redobrada.
As prescrições consideradas clinicamente justificadas diminuíram modestamente de 6% em 2013 para 5,5% em 2021, enquanto as consideradas inadequadas caíram de 15,7% para 11,4% no mesmo período.
Essa melhora, embora positiva, não elimina o risco para milhões de pacientes, que continuam expostos a efeitos adversos significativos.
A pesquisa aponta que a persistência da falta de justificativa clínica documentada é um problema crucial na atenção à saúde do idoso.
Isso sugere que, em muitos casos, os benefícios esperados dos medicamentos podem não superar os riscos significativos de efeitos adversos, como confusão intensificada e maior propensão a quedas.
Essas quedas podem levar a fraturas e outras complicações graves para idosos com demência, comprometendo seriamente sua recuperação e bem-estar geral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a demência atinge milhões globalmente, e a segurança medicamentosa é um pilar fundamental no cuidado.
É fundamental que pacientes idosos, ou seus cuidadores, trabalhem em estreita colaboração com os médicos para garantir que as medicações prescritas sejam realmente apropriadas para cada caso.
A revisão regular da lista de medicamentos e a busca por alternativas não farmacológicas para o manejo de sintomas podem ser passos cruciais para melhorar a qualidade e a segurança do cuidado de milhões de pessoas com demência.
Ainda que o estudo tenha suas limitações, como a exclusão de dados do Medicare Advantage e a medição da prevalência de prescrições em vez da exposição total aos medicamentos, seus achados reforçam a necessidade de vigilância contínua.
A otimização da segurança medicamentosa em pacientes com demência é um desafio complexo, que exige maior conscientização e aprimoramento das práticas clínicas para proteger os mais vulneráveis, uma prioridade para órgãos como o Ministério da Saúde no Brasil.











