A ascensão vertiginosa da inteligência artificial (IA) e dos sistemas baseados em dados (DS) está remodelando o mercado de trabalho global em um ritmo sem precedentes, gerando um debate crucial sobre o desaparecimento do trabalho remunerado. Enquanto a tecnologia promete ganhos de produtividade e novas oportunidades, ela também impulsiona a automação de tarefas, reduzindo salários e eliminando profissões mais rapidamente do que novas podem surgir. Como Peter G. Kirchschläger observa em artigo recente na Project Syndicate, a sociedade precisa definir como preservar a dignidade humana em um cenário onde o pleno emprego pode não ser mais a norma.
Essa transformação não é uma projeção distante. Relatórios do Fórum Econômico Mundial (WEF) publicados entre 2025 e 2026 indicam que a IA já está consolidada como uma infraestrutura básica do trabalho, com 88% das empresas utilizando-a em alguma função. O estudo “Four Futures for Jobs in the New Economy: AI and Talent in 2030” do WEF projeta que, até 2030, cerca de 92 milhões de empregos serão eliminados, embora 170 milhões de novas vagas sejam criadas, resultando em um saldo positivo de 78 milhões de postos de trabalho. No entanto, a preocupação reside na natureza dessas mudanças e na capacidade de adaptação da força de trabalho.
A percepção global é ambígua: 67% das pessoas acreditam que a IA levará à perda de empregos, enquanto 46% veem a tecnologia como geradora de novas oportunidades. No Brasil, o otimismo é ligeiramente maior, com 50% enxergando potencial de criação de vagas. O desafio, portanto, não é apenas quantitativo, mas qualitativo, exigindo uma redefinição profunda das habilidades e do valor do trabalho humano.
A reconfiguração do mercado de trabalho e o desafio da requalificação
A inteligência artificial está catalisando uma reconfiguração do mercado de trabalho que se manifesta na obsolescência de certas funções e no surgimento de outras. Profissões como caixas de banco e supermercado, atendentes de correios e operadores de entrada de dados estão entre as mais ameaçadas pela automação até 2030. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que um quarto dos postos de trabalho globalmente enfrenta sério risco de se tornar obsoleto devido à IA.
Em contrapartida, há uma demanda crescente por especialistas em IA e aprendizado de máquina, cientistas de dados, profissionais de cibersegurança, engenheiros de energias renováveis, gestores de transformação digital e curadores de dados, entre outros. A demanda por habilidades ligadas à IA, por exemplo, cresceu 70% entre 2024 e 2025, evidenciando um descompasso entre a velocidade tecnológica e a capacidade de requalificação. A pesquisa da CNBC com líderes de RH em novembro de 2025 revelou que 89% esperam que a IA impacte funções de trabalho em 2026.
Nesse cenário, a requalificação e o aprimoramento profissional tornam-se essenciais. A IA não deve ser vista apenas como substituta, mas como uma ferramenta de potencialização da interação humana, atuando como um “copiloto cognitivo”. Empresas e governos precisam colaborar para criar programas de capacitação, com foco em habilidades como pensamento crítico, criatividade, resiliência e gestão da própria IA. O Fórum Econômico Mundial destaca que o futuro do trabalho não será definido apenas pela tecnologia, mas pelas escolhas em capital humano.
A busca por um novo contrato social: Renda Básica Universal e dignidade
A possibilidade de o trabalho remunerado se tornar escasso levanta questões sociais e éticas profundas sobre o que acontece com aqueles cujas funções são automatizadas. Em um mundo onde o pleno emprego não é mais garantido, a Renda Básica Universal (RBU) surge como uma proposta para mitigar o impacto do desemprego tecnológico e garantir a subsistência e a dignidade humana. Defensores da RBU argumentam que ela pode reduzir a pobreza e a desigualdade, oferecendo uma rede de segurança em meio à automação acelerada.
No entanto, a RBU não está isenta de controvérsias. Críticos apontam o alto custo de implementação e o potencial de desmotivar o trabalho e a inovação, além de não abordar a desigualdade estrutural na propriedade do capital tecnológico. O debate se estende à própria definição de dignidade no contexto do trabalho. A Constituição Federal do Brasil, por exemplo, estabelece a dignidade da pessoa humana como um de seus fundamentos, reconhecendo o trabalho não apenas como meio de subsistência, mas como forma de realização pessoal e social.
A questão central é como as sociedades podem evoluir para um modelo que valorize a contribuição humana além do mero valor econômico do trabalho. Isso implica políticas públicas robustas, investimentos em educação e, crucialmente, uma reflexão ética sobre a relação entre tecnologia, economia e bem-estar social. A transição para a era da IA exige um novo contrato social que assegure a dignidade de todos, mesmo que a natureza do trabalho seja radicalmente transformada.
O futuro do trabalho não é um destino predeterminado pela tecnologia, mas o resultado das escolhas humanas. Embora a inteligência artificial traga consigo a promessa de eficiências sem precedentes e a criação de novas fronteiras de atuação, ela impõe um desafio fundamental: garantir que o progresso tecnológico não deixe para trás uma parcela significativa da população. A capacidade de governos, empresas e indivíduos de investir proativamente em requalificação, fomentar a colaboração humano-máquina e redefinir o valor social do trabalho será decisiva para construir uma sociedade mais inclusiva e digna em um cenário de transformação contínua.












