A narrativa de que a descoberta orgânica de jogos está morta ecoa por toda a indústria, de mesas-redondas em conferências a publicações no LinkedIn. Muitos desenvolvedores sentem-se presos em uma guerra de lances por anúncios, com a curadoria de lojas digitais parecendo quebrada, mesmo para títulos com orçamentos de marketing AAA. De fato, uma pesquisa recente de marketing de jogos revelou que quase um terço dos desenvolvedores esperam que a descoberta seja seu maior desafio em 2026, cenário compreensível diante do volume diário de lançamentos em todas as plataformas.
No entanto, a realidade é mais matizada. A descoberta de jogos não desapareceu; ela simplesmente se transformou em algo mais complexo, social e exigente, como apontado em uma análise do GamesIndustry.biz. O sucesso hoje depende de uma compreensão aprofundada das novas dinâmicas de engajamento dos jogadores, que vão muito além dos modelos tradicionais de visibilidade.
Com a indústria de games consolidada como um pilar lucrativo do entretenimento, e com 82,8% da população brasileira afirmando jogar com alguma frequência, a maneira como os títulos chegam ao público é crucial. O desafio reside em adaptar-se a um cenário onde a atenção dos jogadores está pulverizada e a autenticidade se tornou um ativo valioso. A evolução tecnológica, a expansão do perfil do público e a consolidação de novas interações digitais forçam uma reavaliação completa das estratégias de marketing e lançamento.
O novo campo de batalha: a ascensão do social
Desenvolvedores que ainda dependem exclusivamente de grandes destaques em vitrines de lojas para lançar globalmente estão lutando a batalha errada. A busca pelo “santo graal” de uma nomeação de destaque da Apple ou um lugar no carrossel da Steam ainda tem valor, mas o panorama se fragmentou. É imperativo encontrar os jogadores onde eles realmente buscam jogos e notícias sobre games hoje. Dados recentes citados pelo GamesIndustry.biz indicam que 64% dos jogadores descobrem novos títulos via YouTube, seguido de perto pelo TikTok (38%) e Instagram (36%).
Até mesmo o boca a boca (34%) supera a maioria dos canais tradicionais e modernos, como promoções de lojas online (29%). Isso significa que o campo de batalha se expandiu da vitrine para o feed social. No Brasil, o marketing de influência ganha protagonismo, com 10% do público acompanhando influenciadores de games regularmente, segundo o relatório “Estado de Marketing de Influência na Área de Gaming no Brasil 2025”. Plataformas como Twitch e Spotify também se destacam, exigindo que os estúdios invistam em tração social, ecossistemas de criadores e defesa do jogador para sustentar a visibilidade.
Plataformas, design e a era do “game-as-a-service”
Apesar da crescente importância do social, as vitrines digitais ainda representam o ponto final da transação. Desenvolvedores devem otimizar sua presença nessas plataformas, desde a pilha de tecnologia até as ferramentas de análise e, crucialmente, a exposição ao público. Isso requer mais do que apenas fazer upload de um build; exige a compreensão do “ciclo de atualização” da loja, que é parcialmente algorítmico e parcialmente alimentado por itens “novos”, “atualizados” e “em promoção”, com prioridades internas variáveis.
Em 2026, é provável que o Google Play enfatize jogos que atendam aos seus novos recursos da guia “Para você”, a Apple promova seu aplicativo dedicado a jogos, a Valve reforce o programa Steam Deck Verified e a Microsoft incentive o suporte ao Xbox Play Anywhere. Aproveitar essas parcerias não tão silenciosas é fundamental. Cada jogo é, efetivamente, um “game-as-a-service”, demandando um ciclo constante de eventos de vendas, atualizações de conteúdo e otimização para novos recursos e requisitos de plataforma, a fim de manter a visibilidade e gerar receita saudável.
Os desenvolvedores de sucesso em 2026 provavelmente projetarão seus jogos já pensando no marketing, e não apenas o farão após o lançamento. Hackes de descoberta estão mudando a equação: programas de indicação incentivada, como o de Raid: Shadow Legends, transformam jogadores em embaixadores. A integração com plataformas de streaming como Twitch e Discord, como visto em títulos com gameplay social, também é vital. Projetar jogos para que se integrem diretamente a esses ecossistemas cria relações interativas com os fãs, impulsionando a descoberta orgânica.
A reinvenção da descoberta de jogos exige uma abordagem holística. Não se trata de uma única estratégia, mas de uma combinação de design inteligente, engajamento social ativo e otimização contínua nas plataformas. O futuro da visibilidade no mercado de games reside na capacidade de construir comunidades, aproveitar a autenticidade dos criadores de conteúdo e garantir que o jogo seja inerentemente “comercializável” desde sua concepção.











