Cientistas da Universidade de Kyushu descobriram que o cérebro adolescente não apenas poda conexões, mas forma “hotspots” de sinapses densas. Esse processo, crucial para o pensamento de alto nível, emerge na adolescência. Pode estar ligado a condições como a esquizofrenia.
A pesquisa, divulgada em 16 de janeiro de 2026 pela ScienceDaily, redefine o desenvolvimento neural juvenil. Por décadas, a neurociência sustentou que o amadurecimento cerebral na adolescência era impulsionado principalmente pela “poda sináptica”. Este é um processo de eliminação de conexões fracas ou não utilizadas.
Essa visão ligava a poda excessiva a transtornos neuropsiquiátricos, como a esquizofrenia. A esquizofrenia frequentemente se manifesta na juventude e envolve sintomas como alucinações e desorganização do pensamento. No entanto, a complexidade inerente a essa fase da vida sugeria que a imagem poderia ser mais matizada do que se acreditava.
A adolescência é um período de intensa transformação, não apenas no aspecto social e físico, mas também na arquitetura cerebral. Há uma maturação de habilidades mentais avançadas, como planejamento, raciocínio e tomada de decisões. Compreender os mecanismos subjacentes a essas mudanças é fundamental para desvendar tanto o desenvolvimento saudável quanto as origens de diversas patologias.
Novos “hotspots” sinápticos e a reavaliação de teorias
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Kyushu, liderada pelo Professor Takeshi Imai, trouxe à luz evidências que questionam a teoria da poda sináptica como mecanismo dominante. Em um estudo publicado em 14 de janeiro na revista Science Advances, eles revelaram que o cérebro adolescente também constrói ativamente novos e densos aglomerados de sinapses em regiões específicas dos neurônios.
A descoberta foi inesperada. “Não tínhamos a intenção de estudar distúrbios cerebrais”, afirmou o Professor Imai, da Faculdade de Ciências Médicas de Kyushu. “Após desenvolver uma ferramenta de alta resolução para análise sináptica em 2016, observamos o córtex cerebral de camundongos por curiosidade. Além de ver a beleza da estrutura neuronal, ficamos surpresos ao descobrir um ‘hotspot’ de alta densidade de espinhas dendríticas”, explicou. Essas espinhas são minúsculas protuberâncias onde as sinapses excitatórias são formadas.
Para investigar essas estruturas detalhadamente, a equipe concentrou-se nos neurônios da Camada 5 do córtex cerebral. Esses neurônios atuam como um ponto de controle central para o processamento de informações. Utilizando o agente de clareamento tecidual SeeDB2, desenvolvido pela equipe de Imai, combinado com microscopia de super-resolução, foi possível mapear as espinhas dendríticas em neurônios inteiros da Camada 5 pela primeira vez.
O mapeamento detalhado revelou um padrão surpreendente: uma seção específica do dendrito continha uma concentração excepcionalmente densa de espinhas dendríticas, formando o que os pesquisadores chamaram de “hotspot”. Análises adicionais mostraram que esse “hotspot” não existe nos estágios iniciais da vida, surgindo apenas durante a adolescência.
Ao rastrear a distribuição das espinhas em várias fases de desenvolvimento, os cientistas observaram que em camundongos com duas semanas de idade, as espinhas dendríticas estavam distribuídas de forma relativamente uniforme. No entanto, entre três e oito semanas de idade — período que abrange da infância à adolescência em camundongos —, a densidade das espinhas aumentou acentuadamente em uma única região do dendrito apical.
Implicações para a esquizofrenia e a saúde mental
Os achados da Universidade de Kyushu sugerem uma reconsideração da hipótese de “poda sináptica adolescente” como único motor do desenvolvimento cerebral juvenil. “Enquanto a poda sináptica ocorre amplamente nos dendritos, a formação de sinapses também acontece em compartimentos dendríticos específicos durante o desenvolvimento cortical adolescente”, explicou Ryo Egashira, primeiro autor do estudo e estudante de pós-graduação na época da pesquisa.
Essa dualidade — poda e formação ativa — é crucial. A descoberta pode oferecer uma nova perspectiva sobre como certos distúrbios cerebrais se desenvolvem. “A interrupção desse processo pode ser o fator chave em pelo menos alguns tipos de esquizofrenia”, acrescentou Egashira. Em vez de focar apenas na perda de conexões, a pesquisa aponta para a importância da formação e organização específicas dessas novas estruturas.
Este entendimento mais granular da neurobiologia da adolescência abre caminhos promissores para futuras investigações e, potencialmente, para abordagens terapêuticas mais direcionadas. Ao invés de um período de mera simplificação, a adolescência emerge como uma fase de complexa reestruturação neural. A criação de novas conexões pode ser tão vital quanto a eliminação das antigas, moldando o indivíduo para a vida adulta e impactando sua vulnerabilidade a condições psiquiátricas.









