Os desequilíbrios globais, fenômeno caracterizado por grandes déficits e superávits em contas correntes de nações, ressurgem com força na pauta econômica internacional. Essa preocupação, que dominou discussões em 2006, volta a ser o foco principal da presidência francesa do G7, o clube das economias avançadas, a partir de 1º de janeiro de 2026, conforme análise de Barry Eichengreen para o Project Syndicate.

As divergências nas balanças comerciais, onde alguns países exportam muito mais do que importam (superávits) enquanto outros fazem o oposto (déficits), não são inerentemente negativas. No entanto, quando se tornam excessivas e persistentes, podem gerar vulnerabilidades significativas, como a dependência de financiamento externo ou a negligência de investimentos domésticos essenciais. A história recente mostra que tais assimetrias podem alimentar tensões comerciais e desestabilizar a economia global.

O ressurgimento dos desequilíbrios e a agenda do G7

A situação atual reflete um cenário complexo, com dados recentes indicando a intensificação desses desequilíbrios. Os Estados Unidos, por exemplo, registraram um déficit na conta corrente de 3% do Produto Interno Bruto em 2023, e esse valor aumentou para 3,9% do PIB em 2024, totalizando US$ 1,13 trilhão. O déficit comercial dos EUA também atingiu a marca de US$ 918,4 bilhões em 2024, o segundo maior desde 1960, impulsionado por um salto nas importações.

Em contraste, a China continua a ser um polo de superávit comercial. Em 2024, o país asiático alcançou um superávit recorde de quase US$ 1 trilhão. Em 2025, o superávit anual chinês chegou a US$ 1,08 trilhão. Esse cenário é impulsionado por suas exportações resilientes, mesmo diante de uma demanda interna por vezes fraca, e contribui para o agravamento das assimetrias na economia mundial de US$ 19 trilhões.

Impactos e perspectivas para a economia global

A escalada das tensões comerciais tem sido um fator crucial nesse ressurgimento. A administração do presidente Donald Trump, por exemplo, ao retornar em 2025, impôs um novo regime abrangente de tarifas, elevando a tarifa média dos EUA para 17,9% naquele ano, o nível mais alto desde 1934. Tais medidas, destinadas a remodelar os fluxos comerciais globais e reduzir os déficits americanos, acabaram por contribuir para os recordes de déficit comercial em 2024.

Diante desse panorama, a presidência francesa do G7, como destaca o economista Barry Eichengreen em sua coluna para o Project Syndicate (www.project-syndicate.org), tem a difícil tarefa de navegar por essas complexas dinâmicas. O presidente francês, Emmanuel Macron, já alertou para a necessidade de evitar a fragmentação do mundo em blocos antagônicos, como um G7 anti-China ou um BRICS anti-G7.

A busca por um equilíbrio sustentável exigirá esforços coordenados e reformas por parte tanto dos países com superávits excessivos quanto daqueles com déficits. A persistência dos desequilíbrios não é apenas uma questão econômica, mas também geopolítica, demandando diálogo e cooperação para mitigar riscos de instabilidade e garantir um crescimento mais equitativo e resiliente para a economia global.