A crescente perda florestal está remodelando silenciosamente a dinâmica das doenças transmitidas por vetores, forçando mosquitos a adaptarem seus hábitos alimentares e a buscarem sangue humano com maior frequência. Um estudo recente, publicado em 15 de janeiro de 2026, destaca como o desmatamento, notadamente na Mata Atlântica brasileira, leva esses insetos a se alimentarem de pessoas em vez da diversificada vida selvagem, intensificando o perigo de surtos de enfermidades como dengue e Zika.
Pesquisadores observaram uma mudança preocupante no comportamento desses vetores em paisagens dominadas por atividades humanas. À medida que as florestas diminuem, a fauna selvagem é expulsa, e os mosquitos, antes dependentes de uma variedade de animais, agora direcionam sua atenção para os humanos, que se tornam a fonte de alimento mais acessível e abundante. Essa adaptação tem implicações diretas para a saúde pública, especialmente em comunidades situadas nas bordas das florestas.
A Mata Atlântica, um bioma de riqueza biológica extraordinária ao longo da costa brasileira, foi reduzida a aproximadamente um terço de seu tamanho original devido ao avanço do desenvolvimento humano. Nesse cenário, o Instituto Oswaldo Cruz e a Universidade Federal do Rio de Janeiro uniram esforços para investigar a preferência alimentar dos mosquitos em remanescentes florestais, revelando um claro apetite por sangue humano.
Mudança de hábitos: humanos como alvo preferencial
Para entender melhor o que os mosquitos estavam picando, a equipe de pesquisa utilizou armadilhas de luz em reservas naturais no estado do Rio de Janeiro. Mosquitos fêmeas que haviam se alimentado recentemente foram coletados e analisados em laboratório. O DNA do sangue extraído do interior dos mosquitos foi sequenciado, permitindo identificar as espécies de vertebrados que haviam sido picadas.
Os resultados foram reveladores: entre 145 mosquitos com refeições de sangue identificáveis, 18 haviam se alimentado de humanos. Outras refeições incluíram anfíbios, aves, canídeos e roedores. Espécies como Cq. Venezuelensis e Cq. Fasciolata apresentaram refeições mistas, indicando que podem se alimentar de múltiplos hospedeiros, incluindo humanos. Essa flexibilidade, combinada com a disponibilidade de hospedeiros, é crucial para a compreensão da dinâmica de transmissão de doenças.
Dr. Jeronimo Alencar, biólogo do Instituto Oswaldo Cruz, enfatiza que, em um ambiente com grande diversidade de potenciais hospedeiros vertebrados, uma preferência por humanos amplifica significativamente o risco de transmissão de patógenos. A disponibilidade e a proximidade do hospedeiro são fatores extremamente influentes no comportamento do mosquito, superando até mesmo preferências inatas de algumas espécies, conforme explicado por Dr. Sergio Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Desmatamento e o risco crescente de epidemias
À medida que o desmatamento avança e os assentamentos humanos se expandem para áreas florestais, muitas espécies de plantas e animais desaparecem. Os mosquitos, em resposta, alteram seus habitats e estratégias de busca por alimento, aproximando-se das pessoas. Com menos opções naturais disponíveis, esses insetos são forçados a buscar novas fontes de sangue alternativas, acabando por se alimentar mais de humanos por conveniência, já que somos o hospedeiro mais prevalente nessas áreas.
As picadas de mosquitos não são apenas um incômodo. Nas regiões estudadas, esses vetores são responsáveis pela disseminação de vírus perigosos, como os da Febre Amarela, dengue, Zika, Mayaro, Sabiá e Chikungunya. Essas infecções podem representar sérios riscos à saúde e levar a complicações a longo prazo, tornando essencial a compreensão do comportamento alimentar dos mosquitos para mapear a circulação de doenças em ecossistemas e populações humanas.
Os achados do estudo, embora destaquem a necessidade de pesquisas mais amplas e detalhadas, já oferecem valor prático para orientar os esforços de controle de mosquitos e aprimorar os sistemas de alerta precoce para surtos de doenças. A interconexão entre saúde ambiental e humana é inequívoca, exigindo uma abordagem integrada para mitigar os riscos que a perda florestal impõe à nossa segurança sanitária.












