A descoberta de um genoma bacteriano de 5.500 anos em um esqueleto humano na Colômbia reescreve a história das doenças treponêmicas nas Américas. Pesquisadores reconstruíram o DNA de Treponema pallidum, o patógeno ligado à sífilis, revelando uma linhagem desconhecida que precedeu o contato europeu por milênios. Esta revelação redefine nossa compreensão sobre a evolução de infecções transmissíveis na antiguidade.
Os restos mortais, escavados em um abrigo rochoso perto da atual Bogotá, datam de aproximadamente 5.500 anos. A identificação deste genoma ancestral estende o conhecimento genético do Treponema pallidum em mais de 3.000 anos, corroborando a hipótese de que as doenças treponêmicas já circulavam nas Américas muito antes do documentado, conforme detalhado em um estudo publicado em 26 de janeiro de 2026 e amplamente divulgado pelo ScienceDaily.com.
Essa evidência desafia narrativas anteriores sobre a origem dessas doenças, sugerindo uma história evolutiva complexa e independente no continente americano. A paleogenômica, campo que estuda o DNA antigo, demonstra seu potencial único para desvendar a evolução das espécies e os riscos à saúde de comunidades passadas e presentes.
Uma linhagem perdida de um patógeno familiar
O Treponema pallidum é uma bactéria em forma de espiral que hoje se manifesta em três subespécies intimamente relacionadas, cada uma causando uma doença distinta: sífilis, bouba e bejel. Uma quarta doença treponêmica, a pinta, é causada pelo Treponema carateum ou Treponema pallidum subsp. carateum. Apesar de sua composição genética quase idêntica, o surgimento de suas diferentes formas ainda é um enigma para a ciência.
Neste estudo, cientistas confirmaram que o DNA antigo pertencia à espécie Treponema pallidum, mas não correspondia a nenhuma das formas conhecidas que causam doenças atualmente. Embora intimamente relacionado às cepas modernas, o genoma ancestral se separou precocemente na história evolutiva da bactéria. “Uma possibilidade é que tenhamos descoberto uma forma antiga do patógeno que causa a pinta, sobre a qual pouco sabemos, mas que é conhecida por ser endêmica na América Central e do Sul e causa sintomas localizados na pele”, afirma Anna-Sapfo Malaspinas, da Universidade de Lausanne e líder de grupo no SIB Swiss Institute of Bioinformatics.
Com base na análise genética, os pesquisadores estimam que essa cepa antiga se separou de outras linhagens de T. pallidum há cerca de 13.700 anos, enquanto as três subespécies modernas parecem ter divergido muito mais tarde, há aproximadamente 6.000 anos. Essas cronologias apoiam pesquisas anteriores e ressaltam a diversidade dos patógenos treponêmicos no passado distante.
Implicações modernas de um quebra-cabeça genético
Rastrear as origens das doenças treponêmicas é especialmente desafiador porque as bactérias são geneticamente muito semelhantes. Ao mesmo tempo, elas se espalham de maneiras diferentes e podem causar sintomas variados, tornando seus caminhos evolutivos difíceis de desvendar. Elizabeth Nelson, antropóloga molecular e paleopatologista da SMU, destaca que a evidência genômica atual, junto com o genoma recém-apresentado, “não resolve o debate de longa data sobre onde as síndromes da doença se originaram, mas mostra que há uma longa história evolutiva de patógenos treponêmicos que já estava se diversificando nas Américas milhares de anos antes do que se sabia anteriormente”.
A descoberta empurra a associação do T. pallidum com humanos para trás em milhares de anos, possivelmente mais de 10.000 anos atrás, no Pleistoceno Superior, segundo o pesquisador Davide Bozzi, da Universidade de Lausanne e do SIB Swiss Institute of Bioinformatics. Este avanço na paleogenômica não só lança luz sobre a história das doenças infecciosas, mas também oferece perspectivas para entender melhor a evolução dos patógenos e, potencialmente, desenvolver novas estratégias de saúde pública. A contínua pesquisa em DNA antigo é crucial para desvendar os mistérios de doenças que moldaram a humanidade.








