Dormir mais nos fins de semana pode ser a forma mais simples para adolescentes protegerem sua saúde mental, revela uma pesquisa da Universidade de Oregon. Publicado no Journal of Affective Disorders em janeiro de 2026, o estudo indica que jovens de 16 a 24 anos que compensam o sono semanal têm um risco 41% menor de sintomas depressivos, destacando o poder do sono para o bem-estar.
Conforme noticiado pelo ScienceDaily, a pesquisa reforça uma estratégia pragmática para a saúde mental juvenil, em um momento crucial. No Brasil, por exemplo, estima-se que quase um em cada seis jovens entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental, elevando o risco de depressão e suicídio, conforme dados do UNICEF Brasil.
Adolescentes e jovens adultos enfrentam desafios contínuos de sono, muitas vezes acumulando uma “dívida” de horas durante a semana devido às demandas acadêmicas, atividades sociais e compromissos extracurriculares. Essa lacuna entre a necessidade biológica de sono e a realidade cotidiana pode ter sérias implicações no desenvolvimento e bem-estar, sendo um cenário preocupante globalmente.
Enquanto a recomendação ideal para adolescentes é de oito a dez horas de sono regular por noite, a realidade prática é que muitos não conseguem atingir essa meta. A flexibilidade de permitir que os jovens recuperem o sono perdido aos sábados e domingos emerge como uma estratégia cientificamente validada para mitigar os riscos associados à privação crônica de sono e, consequentemente, à depressão. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) aponta que transtornos mentais representam 16% da carga global de doenças em pessoas de 10 a 19 anos.
A ciência por trás do sono de recuperação e a redução do risco de depressão
A análise de dados do National Health and Nutrition Examination Survey (2021-2023) revelou um achado notável: aqueles que recuperavam o sono nos fins de semana apresentavam um risco 41% menor de sintomas depressivos em comparação com os que não o faziam. Este é um dos primeiros estudos a examinar o sono de recuperação em adolescentes e jovens adultos típicos nos Estados Unidos, expandindo pesquisas anteriores focadas em outras regiões.
Melynda Casement, psicóloga licenciada e professora associada da Universidade de Oregon, coautora do estudo, destaca a importância da descoberta. Ela observa que, embora o sono consistente seja o ideal, “não é prático para muitos adolescentes, ou pessoas em geral”, devido ao ritmo de vida atual.
A capacidade de “dormir até mais tarde” pode, portanto, atuar como um amortecedor contra o estresse e os desequilíbrios químicos que contribuem para a depressão. Os pesquisadores mediram o sono de recuperação comparando as horas médias de sono nos fins de semana com as dos dias de semana.
Os participantes também relataram seu bem-estar emocional e foram classificados com sintomas de depressão se declarassem sentir-se tristes ou deprimidos todos os dias. Esses dados robustos reforçam a validade da correlação entre o sono compensatório e a saúde mental, um tema de crescente interesse, como discutido pelo Hospital Israelita Albert Einstein.
Desafios biológicos do sono na adolescência e a importância da flexibilidade
Os ritmos circadianos biológicos dos adolescentes naturalmente se alteram, tornando mais difícil para eles adormecerem cedo, mesmo quando cansados. Casement explica que, nessa fase, os jovens tendem a se tornar “corujas noturnas”, com o início do sono atrasando progressivamente até os 18-20 anos.
Esse padrão natural, que geralmente se alinha com uma janela de sono entre 23h e 8h, frequentemente colide com os horários de início das aulas nos Estados Unidos. Essa incompatibilidade entre o relógio biológico adolescente e as exigências sociais leva à privação crônica de sono.
Embora especialistas e profissionais de saúde apoiem o atraso no início das aulas como medida de saúde pública, muitos sistemas educacionais ainda não adotaram essa mudança. Assim, permitir que os adolescentes durmam mais nos fins de semana torna-se uma adaptação crucial e acessível, especialmente considerando que a saúde mental de adolescentes brasileiros enfrenta desafios crescentes.
“É normal que os adolescentes sejam corujas noturnas, então deixe-os recuperar o sono nos fins de semana se não conseguirem dormir o suficiente durante a semana, porque isso provavelmente será algo protetor”, aconselha Casement. Essa perspectiva reconhece a complexidade da vida adolescente e oferece uma solução prática para um problema de saúde pública, já que a depressão é uma das principais causas de incapacidade entre pessoas de 16 a 24 anos.
No Brasil, a ansiedade entre adolescentes dobrou em dez anos, segundo dados do SUS, com registros de 282,8 a cada 100 mil jovens. Isso sublinha a urgência de intervenções eficazes, como as discutidas pelo Nexo Jornal sobre o quadro da saúde mental juvenil no Brasil.
A mensagem é clara: o sono não é um luxo, mas um pilar fundamental para a saúde mental. Para muitos adolescentes, a flexibilidade de recuperar o sono nos fins de semana pode ser uma intervenção simples, porém poderosa, na prevenção da depressão. Enquanto a busca por horários de sono consistentes deve continuar, reconhecer e apoiar a necessidade de “dormir até mais tarde” ocasionalmente pode fazer uma diferença tangível no bem-estar de uma geração que enfrenta pressões sem precedentes. Investir no sono é investir no futuro da saúde mental juvenil.












