Apesar dos impasses evidentes nas grandes conferências globais, como a recente COP30 em Belém, onde faltou um acordo vinculativo para eliminar os combustíveis fósseis, a economia do clima segue em ritmo acelerado, impulsionada por forças de mercado e investimentos significativos. Essa dicotomia, entre a lentidão da diplomacia e a agilidade econômica, define o cenário atual da transição energética e da sustentabilidade.
Relatórios indicam que, enquanto as negociações políticas patinam, o setor privado e os mercados financeiros estão redirecionando capital para soluções verdes, reconhecendo tanto os riscos da inação quanto as oportunidades de um futuro descarbonizado. Essa dinâmica sugere que a transição para uma economia de baixo carbono pode estar se descolando das mesas de negociação para se enraizar nas decisões de investimento e inovação.
Em 2023, um novo recorde foi estabelecido na implantação de energias renováveis, atingindo uma capacidade total de 3870 Gigawatts (GW) globalmente. O ano de 2024 manteve o ritmo, com a adição de 582 GW de capacidade renovável, principalmente solar fotovoltaica e eólica. Esses avanços mostram que a competitividade de custo das fontes renováveis já supera a dos combustíveis fósseis em grande parte dos novos projetos.
O avanço imparável das energias renováveis e o financiamento verde
As energias solar fotovoltaica e eólica em terra tornaram-se notavelmente mais baratas do que as alternativas de combustíveis fósseis. Em 2024, 91% dos novos projetos de energia renovável foram mais econômicos do que os de combustíveis fósseis, gerando uma economia estimada de US$ 57 bilhões. Essa vantagem econômica é um motor poderoso para a descarbonização, reduzindo a dependência de mercados voláteis de combustíveis importados e fortalecendo a segurança energética.
Paralelamente, o financiamento verde e os investimentos com critérios ESG (Ambiental, Social e Governança) estão em ascensão. Projeta-se que os investimentos ESG atinjam US$ 53 trilhões até 2025, o que representaria um terço dos ativos de investimento globais. Instituições financeiras, inclusive bancos, estão cada vez mais incorporando indicadores ESG e riscos climáticos em suas estratégias, direcionando capital para projetos sustentáveis e exigindo maior transparência das empresas.
A busca por descarbonização também impulsiona a inovação. Empresas estão priorizando investimentos em tecnologias verdes, como hidrogênio, baterias e captura de carbono. A inteligência artificial, por exemplo, é vista como uma ferramenta crucial para otimizar processos e reduzir emissões de CO2. Este movimento não se restringe a um setor, abrangendo indústria, transporte e geração de energia, com o Brasil, inclusive, destacando-se na criação de empregos verdes.
O custo da inação e o imperativo econômico da adaptação
A inação diante das mudanças climáticas representa um risco econômico substancial. Um estudo do Boston Consulting Group (BCG) alerta que a omissão pode causar perdas de 10% a 15% do PIB global até 2100. Relatórios como o Panorama Ambiental Global (GEO7) do Pnuma também apontam para milhões de mortes prematuras e danos financeiros massivos, embora destaquem que os benefícios macroeconômicos de agir podem chegar a US$ 20 trilhões anuais até 2070.
Eventos climáticos extremos já causaram US$ 3,6 trilhões em danos desde 2000, e empresas que não se adaptarem podem perder até 7% de seus lucros anuais até 2035. Esse cenário reforça que a proteção ambiental não é apenas uma questão ética, mas um imperativo econômico. A degradação ambiental impõe custos de longa duração à economia, afetando a produção e a saúde humana.
Apesar da retórica política muitas vezes hesitante, como observado na COP30, o mercado está reagindo de forma pragmática, precificando os riscos e recompensando a resiliência. Conforme destacado em uma análise do Project Syndicate, a degradação ecológica cria um inegável momento econômico, onde os combustíveis fósseis se tornam menos competitivos e os mercados valorizam aqueles que se adaptam.
A transição energética e a busca por sustentabilidade não são mais meras aspirações ambientais, mas forças econômicas poderosas que estão remodelando indústrias e investimentos. O futuro, embora desafiador, se desenha com uma crescente integração entre a saúde do planeta e a vitalidade da economia global, com as decisões de mercado muitas vezes superando a lentidão dos acordos diplomáticos.












