A estrutura de segurança que sustentou a Europa por décadas está sob profunda tensão, revelando que nem a OTAN nem a União Europeia são totalmente adequadas para os desafios atuais. É cada vez mais evidente a necessidade de um novo arcabouço de segurança europeu, sugerindo a reativação de algo semelhante à antiga União da Europa Ocidental (UEO) ou a institucionalização de uma “coalizão dos dispostos” entre nações como França, Alemanha e Reino Unido.

Essa percepção, destacada por Carl Bildt em artigo para o Project Syndicate, reflete um consenso crescente sobre as limitações das alianças existentes. O continente enfrenta um cenário geopolítico em rápida transformação, marcado por conflitos nas fronteiras, ameaças cibernéticas sofisticadas e a crescente vulnerabilidade das cadeias de abastecimento globais.

A dependência histórica da Europa em relação aos Estados Unidos como garante da sua segurança tem sido objeto de debate, mas a urgência de uma autonomia estratégica tornou-se premente. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, representou um marco crítico, expondo as limitações estruturais que impedem a plena consolidação de uma política externa e de segurança comum robusta para a UE.

As limitações das estruturas atuais de segurança europeia

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), embora fundamental para a defesa coletiva, é primariamente uma aliança transatlântica liderada pelos EUA. Isso gera uma dependência que, em um mundo de incertezas, levanta questões sobre a capacidade da Europa de agir de forma independente em todos os cenários. Há décadas, os Estados Unidos têm pressionado os países europeus a aumentar seus gastos militares, com o argumento de que arcam com o maior ônus.

Por outro lado, a União Europeia, apesar de seus avanços significativos em integração econômica e política, ainda enfrenta obstáculos para se consolidar como um ator de defesa unificado e eficaz. A Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da UE, embora tenha gerado uma resposta coesa a crises como a guerra na Ucrânia, ainda esbarra em desafios de coordenação e na oposição de alguns membros a uma natureza militar mais forte do bloco.

Estratégias como a “Bússola Estratégica” da UE, aprovada em março de 2022, buscam definir um roteiro para fortalecer a segurança e defesa, mas a implementação de um exército comum ou de uma capacidade de resposta rápida ainda é um processo complexo.

Em busca de um novo modelo: o retorno à União da Europa Ocidental?

Diante dessas lacunas, a proposta de Carl Bildt, conforme publicado no Project Syndicate em 21 de janeiro de 2026, de reviver o modelo da União da Europa Ocidental (UEO) ganha relevância. A UEO, que operou entre 1955 e 2011, foi uma organização de defesa que visava coordenar assuntos europeus relacionados à defesa e segurança, e inclusive contribuiu para a criação da OTAN.

Embora a UEO tenha sido esvaziada de conteúdo em certas fases e formalmente dissolvida em 2011, sua reativação, ou a criação de uma estrutura similar, poderia oferecer um fórum exclusivo para os europeus desenvolverem sua cooperação em defesa, complementando a OTAN sem competir com ela. Uma “coalizão dos dispostos”, institucionalizando a colaboração entre potências como França, Alemanha e Reino Unido, poderia ser um passo prático para uma defesa europeia mais autônoma e ágil.

A Europa precisa de uma abordagem integrada que não apenas defenda seu território, mas também reforce a resiliência de suas infraestruturas críticas e preserve sua capacidade de decisão em momentos de crise. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem defendido o investimento na segurança e a necessidade de uma abordagem estratégica própria, como evidenciado pelo pacote de apoio à segurança no Ártico.

O futuro da segurança europeia reside na capacidade do continente de forjar sua própria autonomia estratégica. Isso exige não apenas um aumento nos gastos com defesa, mas também uma reformulação das alianças e estruturas que permitam uma resposta mais eficaz e coordenada às ameaças multifacetadas do século XXI. A busca por um novo arcabouço de segurança europeu não é apenas uma opção, mas uma necessidade imperativa para garantir a estabilidade e a prosperidade da região.