Cientistas da Universidade de Vermont, em colaboração com pesquisadores de Cambridge, replicaram a evolução em simulações computacionais e descobriram que a resposta adaptativa de uma população às mudanças ambientais é imprevisível. O estudo, publicado em dezembro de 2025, desafia a ideia de que a evolução simulada segue um caminho único, mostrando que a sequência e a frequência das alterações no ambiente moldam trajetórias evolutivas distintas. Essa complexidade tem implicações diretas para a compreensão da adaptação de espécies em cenários de mudanças climáticas.
Todos os seres vivos enfrentam ambientes em constante transformação. Estações mudam, padrões climáticos oscilam entre inundações e secas, e as populações de plantas e animais precisam lidar continuamente com novas pressões. A cientista Csenge Petak, da Universidade de Vermont, questionou se essas flutuações ambientais frequentes realmente ajudam as populações a se adaptarem, preparando-as para desafios futuros, ou se a perturbação constante retarda o progresso evolutivo.
A investigação buscou entender se as populações se beneficiam de muitas flutuações, tornando novas gerações mais preparadas, ou se são prejudicadas, forçadas a se readaptar repetidamente, sem nunca alcançar os picos de aptidão que poderiam em um ambiente estável. A equipe, que incluiu o cientista da computação Lapo Frati, usou simulações avançadas para acompanhar milhares de gerações de organismos digitais, revelando uma variabilidade notável.
A inesperada influência do histórico evolutivo
As descobertas, publicadas no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), desafiaram suposições simplistas sobre a evolução. Os pesquisadores observaram que, em alguns casos, a mudança ambiental ajudava as populações a encontrar picos de aptidão mais elevados; em outros, as dificultava. Essa variação sugere que o ambiente não afeta a evolução de maneira única e previsível.
A professora de biologia Melissa Pespeni, autora sênior do estudo na Universidade de Vermont, enfatiza que a escala da pesquisa foi crucial para essas percepções. “O mais empolgante é que reproduzimos a evolução centenas de vezes. Isso nos deu uma visão panorâmica de como a evolução se desenrolou em muitos ambientes diferentes – algo impossível de testar em laboratório”, afirmou Pespeni. Uma conclusão central foi que o ponto de partida realmente importa, moldando a trajetória e a dificuldade do caminho evolutivo. Isso significa que não se pode assumir que uma população representa uma espécie inteira.
Para ilustrar, Csenge Petak compara populações de moscas-das-frutas em diferentes partes do mundo. Uma população nos Estados Unidos pode experimentar oscilações sazonais de temperatura, enquanto outra no Quênia alterna entre longos períodos de seca e chuvas intensas. Embora sejam da mesma espécie, enfrentam desafios distintos. Flutuações de temperatura podem promover melhor adaptação a estações frias e quentes, mas ciclos repetidos entre estações secas e úmidas podem, na verdade, impedir a adaptação à seca, forçando a população a “reiniciar” a evolução. Segundo informações do www.sciencedaily.com, isso pode levar a características piores do que em populações expostas apenas à seca.
Implicações para a adaptação em um mundo em mudança
Os resultados têm implicações significativas para problemas do mundo real. É fundamental entender se plantas e animais podem se adaptar rapidamente o suficiente para sobreviver às mudanças climáticas aceleradas. Da mesma forma, bactérias evoluem continuamente resistência a antibióticos, representando uma ameaça crescente à saúde humana. Apesar dessa complexidade, muitas pesquisas ainda se concentram em apenas uma população sob um tipo de estresse ambiental.
O cientista da computação Lapo Frati explica que o foco tradicional em uma única população vivendo sob um conjunto de condições pode omitir padrões importantes. “Pesquisadores frequentemente observam a trajetória de longo prazo de uma população em um ambiente específico”, diz Frati. “Nós selecionamos uma variedade de ambientes e vemos como as especificidades de cada um influenciam a trajetória de muitas populações.” A abordagem mais ampla proposta por este estudo destaca a necessidade de considerar a miríade de caminhos evolutivos possíveis, em vez de buscar uma resposta singular.
A pesquisa da Universidade de Vermont ressalta que a evolução não é um processo linear ou universalmente previsível. A história de uma população, a ordem e a intensidade das pressões ambientais são fatores cruciais que determinam sua capacidade de adaptação. Compreender essa complexidade é vital para desenvolver estratégias de conservação mais eficazes e para enfrentar desafios como a resistência antimicrobiana, exigindo uma visão mais holística e menos simplista da biologia evolutiva.












