O setor de tecnologia financeira no Brasil se prepara para um ano de profunda transformação em 2024, marcado por um ciclo de ajuste e consolidação. Novas diretrizes do Banco Central (BC) intensificam a pressão por conformidade e sustentabilidade, redefinindo o panorama competitivo e as estratégias de crescimento para as fintechs no país.
Após anos de expansão acelerada, impulsionada por investimentos robustos e uma demanda crescente por serviços financeiros digitais, o mercado amadurece. A era de crescer a qualquer custo cede espaço à busca por rentabilidade e operações mais robustas. Este movimento é uma resposta natural ao próprio desenvolvimento do ecossistema e, principalmente, à evolução da agenda regulatória do BC.
A chegada de um ambiente regulatório mais denso, com o avanço de iniciativas como o Open Finance e o aprimoramento das regras de segurança e solvência, força as empresas a realinharem seus modelos de negócio. O cenário atual exige das fintechs maior eficiência operacional e um compromisso inegociável com a governança, filtrando as que possuem um fundamento mais sólido.
O impacto das novas regulamentações
As novas regras impostas pelo Banco Central são o principal motor desta fase de ajuste. A agenda regulatória 2023-2024 do BC tem focado em temas cruciais como a expansão do Open Finance, a segurança cibernética e aprimoramento das normas de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) e combate ao financiamento do terrorismo (CFT). Segundo um relatório de estabilidade financeira do BC, a expansão do Open Finance, em suas fases mais avançadas, exige das instituições uma infraestrutura tecnológica robusta e um padrão de interoperabilidade que nem todas as fintechs de menor porte estão prontas para entregar imediatamente.
Além disso, a revisão das exigências de capital e a supervisão mais rigorosa sobre as instituições de pagamento e outras entidades reguladas aumentam significativamente os custos de conformidade. Essa pressão regulatória favorece as empresas com maior capacidade de investimento em tecnologia e pessoal qualificado, criando uma barreira de entrada e operação que estimula a consolidação. O custo de estar em dia com as exigências pode ser proibitivo para startups com menor fôlego financeiro.
Tendências de mercado e a onda de consolidação
A desaceleração global do investimento em venture capital, que impactou o Brasil, também contribui para o cenário de consolidação. Após um pico em 2021, a captação de recursos para startups de tecnologia financeira diminuiu consideravelmente em 2023, forçando muitas a reavaliar suas estratégias de crescimento e sustentabilidade. A busca por fusões e aquisições (M&A) emerge como uma solução para ganhar escala, otimizar custos e adquirir novas tecnologias ou bases de clientes.
Grandes bancos e fintechs já estabelecidas veem neste momento uma oportunidade para expandir seu portfólio ou eliminar concorrentes, absorvendo players menores com produtos ou nichos de mercado promissores. “O mercado está mais maduro, e a pressão por rentabilidade é real. Veremos menos empresas, mas mais fortes e diversificadas, capazes de navegar num ambiente regulatório complexo”, observa Ana Paula Lima, analista de mercado financeiro em São Paulo. Essa dinâmica redefine a competitividade, empurrando as empresas a buscarem sinergias e modelos de negócio mais eficientes.
Este período de ajuste e consolidação não significa um retrocesso para a inovação, mas sim um amadurecimento necessário. O mercado de fintechs brasileiro emerge mais robusto, com players mais sustentáveis e focados em entregar valor real, tanto para os consumidores quanto para o sistema financeiro. A inovação continuará a ser a força motriz, mas agora aliada a uma governança mais sólida e a um compromisso inabalável com a segurança e a conformidade regulatória.












