Cientistas do Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL) empregaram a técnica de edição genética CRISPR para revolucionar o cultivo da fisális, uma fruta silvestre nutritiva e saborosa. Esta inovação, detalhada em pesquisa divulgada em 11 de janeiro de 2026, promete transformar a planta de um arbusto desordenado em uma cultura de fácil manejo, pronta para abastecer supermercados globalmente.
Por milênios, a seleção natural e o cruzamento tradicional moldaram a maioria das culturas agrícolas que hoje consumimos, um processo lento de centenas ou milhares de anos. Contudo, diante dos desafios do crescimento populacional e das mudanças climáticas, a biotecnologia emerge como uma via crucial para acelerar o desenvolvimento de novas opções alimentares mais resilientes.
A fisális, também conhecida como goldenberry, fisális-peruana ou uchuva, é valorizada por seu equilíbrio de sabores doce e azedo e qualidades nutricionais, ganhando popularidade nos supermercados. No entanto, sua natureza expansiva e desorganizada tem dificultado a produção em grande escala, mantendo-a predominantemente restrita a pequenos cultivos na América do Sul.
O impacto da edição genética na domesticação da fisális
O principal obstáculo para a fisális alcançar o status de cultura global reside em seu porte “indomado”. Miguel Santo Domingo Martinez, pesquisador do laboratório Lippman no CSHL, que liderou o estudo, descreve as plantas como “massivas e desordenadas”, o que complica enormemente a colheita em ambientes agrícolas.
Para superar essa dificuldade, a equipe do CSHL aplicou a tecnologia CRISPR, uma ferramenta de edição genética que permite modificações precisas no DNA da planta. Inspirados por trabalhos anteriores com tomate e cereja-do-chão, eles editaram genes similares na fisális, resultando em plantas aproximadamente 35% menores. Essa redução no tamanho facilita o manejo e permite o plantio em maior densidade, otimizando o espaço e os recursos.
A edição genética com CRISPR oferece benefícios significativos à agricultura, como o aumento da produtividade e a criação de culturas mais resistentes a pragas, doenças e condições climáticas extremas, como seca e altas temperaturas. Essa abordagem é fundamental para garantir a segurança alimentar global frente aos desafios ambientais.
Variedades aprimoradas e o futuro da goldenberry no mercado
Após a modificação do porte, o foco se voltou para o sabor, um fator crucial para a aceitação do consumidor. A equipe realizou uma seleção rigorosa, provando centenas de frutos diretamente do campo para identificar as melhores características gustativas.
Esse trabalho resultou no desenvolvimento de duas linhagens promissoras de fisális, que combinam o crescimento compacto com um sabor acentuado. Embora os frutos dessas novas variedades sejam ligeiramente menores, os pesquisadores veem grande potencial para futuras melhorias, incluindo o aumento do tamanho dos frutos e a resistência a doenças, utilizando as mesmas ferramentas de edição genética.
O próximo passo essencial para a fisális editada por CRISPR é a aprovação regulatória, que permitirá aos agricultores acessar as sementes e iniciar a produção em larga escala. No cenário global, a regulamentação de plantas editadas por genes ainda varia, com países como os EUA isentando algumas dessas culturas das regras rigorosas aplicadas a OGMs, enquanto a União Europeia tende a classificá-las de forma mais restritiva.
A transformação da fisális por meio do CRISPR demonstra o poder da biotecnologia para moldar o futuro da alimentação. Ao acelerar a domesticação de frutas silvestres e aprimorar suas características, essa tecnologia não apenas cria novas opções para os consumidores, mas também fortalece a resiliência agrícola diante de um clima em constante mudança. A fisális, antes uma fruta rebelde, está agora à beira de se tornar um ingrediente básico nas mesas de todo o mundo.









