Em um desdobramento sem precedentes, as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) da Venezuela reconheceram oficialmente Delcy Rodríguez como presidente interina do país. A decisão, anunciada neste domingo, 4 de janeiro de 2026, ocorre um dia após a surpreendente captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. A vice-presidente assume o posto por um período de 90 dias, em meio a um cenário de profunda comoção e incerteza nacional, com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, condenando veementemente a ação norte-americana.

A nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina foi respaldada pela Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) da Venezuela, que ordenou sua ascensão ao poder na ausência de Maduro. O evento marca uma reconfiguração abrupta na estrutura de poder chavista, que governava o país há mais de duas décadas. A capital Caracas amanheceu com ruas vazias e comércio fechado, refletindo a tensão e a expectativa da população.

A crise se aprofundou após o ataque militar dos Estados Unidos em Caracas e cidades adjacentes no sábado, que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O governo venezuelano decretou estado de comoção exterior, conferindo a Delcy Rodríguez amplos poderes para mobilizar as Forças Armadas, assumir infraestruturas de serviços públicos e ativar planos de segurança cidadã.

O cenário político e a reação militar

O anúncio do reconhecimento de Delcy Rodríguez pelas Forças Armadas foi feito em um comunicado televisionado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. Em sua declaração, Padrino López classificou a captura de Maduro como um “sequestro covarde” e uma “brutal agressão militar” contra a soberania venezuelana. Ele afirmou que parte da equipe de segurança de Maduro foi assassinada “a sangue frio” durante a operação.

O ministro apelou ao povo venezuelano para que retome suas atividades econômicas, laborais e educacionais nos próximos dias, enfatizando que “a pátria deve caminhar sobre seu trilho constitucional”. As FANB ativaram um plano de prontidão operacional em todo o território nacional, visando integrar elementos do Poder Nacional para confrontar a “agressão imperial” e assegurar a liberdade e a independência da nação. A Doutrina Monroe, que historicamente justificou intervenções americanas na América Latina, foi explicitamente rechaçada por López.

Quem é Delcy Rodríguez e o futuro da Venezuela

Delcy Eloína Rodríguez Gómez, de 56 anos, é uma figura central do chavismo e ocupa o cargo de vice-presidente desde 2018. Advogada de formação, com estudos em direito social na França, ela construiu uma sólida carreira política, passando por ministérios estratégicos como Comunicação, Relações Exteriores, Economia e Petróleo. Sua ascensão à presidência interina a torna a primeira mulher a liderar o Executivo na história da Venezuela.

Apesar de ser vista como parte da ala mais ideológica do chavismo, Rodríguez é conhecida por sua capacidade de construir pontes com as elites econômicas, investidores estrangeiros e diplomatas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já afirmou que os EUA iriam “administrar” a Venezuela com a cooperação de Rodríguez, descrevendo-a como disposta a atender às exigências de Washington e abrir o mercado petrolífero venezuelano para empresas americanas. Este cenário indica uma transição complexa e potencialmente negociada, com a vice-presidente no centro das atenções globais.

A Venezuela se encontra em uma encruzilhada histórica, com a liderança de Delcy Rodríguez e o apoio das Forças Armadas buscando garantir a governabilidade em um período de intensa pressão externa e reconfiguração interna. Os próximos 90 dias serão cruciais para definir o rumo do país, a resposta à intervenção americana e a estabilidade regional. O desenrolar dos eventos dependerá da capacidade de Rodríguez de consolidar o apoio interno e navegar pelas complexas dinâmicas geopolíticas.