Uma análise recente conduzida por pesquisadores da University College London (UCL) e publicada na revista npj Dementia indica que a doença de Alzheimer pode ter suas raízes genéticas muito mais profundas do que se imaginava. O estudo aponta que um único gene, o APOE, pode ser um fator determinante em até 90% dos casos de Alzheimer, uma estimativa significativamente mais alta do que as anteriores.

A descoberta, divulgada em 23 de janeiro de 2026, como noticiado pelo ScienceDaily, sugere uma redefinição radical na forma como a comunidade científica compreende os riscos e as abordagens de prevenção e tratamento para a doença. Os pesquisadores também concluíram que a influência do gene APOE se estende a quase metade de todos os casos de demência.

Por décadas, a ligação entre o gene APOE e o Alzheimer já era reconhecida. O gene possui três variantes comuns, ou alelos: ε2, ε3 e ε4. Cada indivíduo herda duas cópias do gene, resultando em seis combinações possíveis. Desde os anos 90, sabia-se que portadores de uma ou duas cópias da variante ε4 enfrentam um risco consideravelmente maior de desenvolver Alzheimer, enquanto a variante ε2 geralmente confere um risco menor.

O papel subestimado do gene APOE na demência

O que torna esta pesquisa particularmente impactante é a reavaliação da variante ε3. Tradicionalmente, esta versão do gene APOE era considerada neutra em termos de risco de Alzheimer. No entanto, o Dr. Dylan Williams, principal autor do estudo da Divisão de Psiquiatria e Unidade de Saúde e Envelhecimento ao Longo da Vida da UCL, enfatiza que o impacto adicional do alelo ε3 comum contribui para uma parcela significativa da doença que, de outra forma, não ocorreria.

“Subestimamos por muito tempo o quanto o gene APOE contribui para a carga da doença de Alzheimer”, afirma o Dr. Williams. A análise, que representa o esforço de modelagem mais abrangente até o momento sobre o impacto populacional das variantes do APOE, combinou dados de quatro grandes estudos, totalizando mais de 450.000 participantes. Esta vasta base de dados permitiu aos pesquisadores estabelecer pela primeira vez um grupo de referência com duas cópias de ε2, uma variante rara e de baixo risco.

Com essa abordagem aprimorada, os cientistas estimaram que entre 72% e 93% dos casos de Alzheimer não teriam ocorrido sem a influência das variantes ε3 e ε4 do APOE. Além disso, cerca de 45% de todos os casos de demência podem estar ligados à atuação desse gene. Esses números superam estimativas anteriores, que se concentravam apenas no impacto da variante ε4.

Implicações para o desenvolvimento de tratamentos

As descobertas elevam o gene APOE a uma prioridade ainda maior na pesquisa de mecanismos da doença e no desenvolvimento de novas terapias. O Dr. Williams destaca o progresso significativo em edição genética e outras formas de terapia gênica para atacar diretamente os fatores de risco genéticos.

Intervir especificamente no gene APOE, ou na via molecular entre o gene e a doença, poderia ter um potencial vasto e provavelmente subestimado para prevenir ou tratar uma grande maioria dos casos de Alzheimer. Esta perspectiva abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e personalizados, visando a raiz genética da doença e oferecendo esperança para milhões de pessoas em todo o mundo.

A compreensão aprofundada do papel do gene APOE não apenas redefine nossa visão sobre a etiologia do Alzheimer, mas também catalisa uma nova era de pesquisa focada em intervenções genéticas. O futuro do combate à demência pode residir na capacidade de modular a ação deste gene, transformando a prevenção e o tratamento da doença de Alzheimer em uma realidade mais tangível.