Enquanto governos em todo o mundo investem trilhões de dólares em infraestruturas essenciais como estradas, redes elétricas e sistemas hídricos, a indústria da construção, que molda fisicamente o planeta, ainda não aproveita plenamente os ganhos de eficiência que a inteligência artificial (IA) e a digitalização oferecem. Este cenário é alarmante, especialmente quando o setor é vital para o desenvolvimento sustentável, conforme destacado por Bertrand Badré e Saurabh Mishra no Project Syndicate em janeiro de 2026.
Essa lacuna tecnológica resulta em impactos ambientais e econômicos severos. A construção civil é responsável por aproximadamente 21% das emissões de gases de efeito estufa, gera metade do lixo global em aterros e registra um excesso de gastos de 1,6 trilhão de dólares anualmente. A urgência em modernizar este setor, que historicamente resistiu à inovação, é inegável, com a transformação digital tornando-se uma prioridade para 72% dos participantes de uma pesquisa da International Data Corporation (IDC).
A digitalização não se limita a processos; ela se estende ao canteiro de obras, onde drones, sensores IoT e realidade aumentada permitem o monitoramento em tempo real, melhorando a segurança e a tomada de decisões. A integração de sistemas de gestão também proporciona maior transparência e agilidade, elementos cruciais para reverter o quadro atual de ineficiência e desperdício, que pode chegar a 40% dos materiais em obras.
A inteligência artificial como catalisador da mudança
A IA surge como um pilar fundamental para revolucionar a infraestrutura sustentável, otimizando desde o planejamento até a execução e manutenção. No planejamento de projetos, a IA se destaca na criação de cronogramas detalhados e precisos, analisando dados históricos e variáveis complexas, como condições climáticas e logística de materiais. A empresa Skanska, por exemplo, utiliza IA para projetar edifícios com menor consumo de energia e uso mais eficiente de materiais, minimizando o impacto ambiental.
A aplicação da IA na gestão de projetos pode reduzir custos e prazos ao prever atrasos e identificar gargalos, otimizando a alocação de recursos. A Emccamp, outro exemplo nacional, adotou a tecnologia em diversas áreas, desde vendas até o canteiro de obras, utilizando drones para inspeção, detecção de falhas e monitoramento de equipamentos, além de otimizar o gerenciamento de bota-fora, reduzindo custos e emissões de CO₂. Além disso, a IA permite simulações precisas na fase de projetos de rodovias, ferrovias e saneamento, minimizando erros e reduzindo custos ambientais e financeiros.
Superando desafios e construindo o futuro verde
Apesar dos benefícios evidentes, a implementação da IA na construção civil enfrenta desafios significativos. A resistência à mudança por parte de empresas mais tradicionais e o alto custo inicial de implementação são barreiras importantes. A necessidade de capacitação contínua dos profissionais e a gestão de dados desestruturados também representam obstáculos a serem superados para que o setor possa usufruir plenamente do potencial da IA.
A integração da IA com os princípios ESG (Ambiental, Social e Governança) é um diferencial competitivo e essencial. Ferramentas de IA otimizam o uso de materiais, diminuem o desperdício e ajudam a garantir o cumprimento das normas ESG em tempo real, monitorando o impacto ambiental 24 horas por dia, 7 dias por semana. A abordagem da “IA Verde” (Green-in-AI) busca, inclusive, reduzir o próprio impacto ambiental das tecnologias de IA, otimizando algoritmos e utilizando infraestruturas mais eficientes com energia renovável. Ao adotar essas práticas, as empresas podem reduzir o desperdício para apenas 5%, um avanço notável na busca por uma construção mais sustentável.
A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de otimização; ela é a chave para desbloquear um futuro onde a infraestrutura não apenas serve às necessidades humanas, mas também respeita os limites planetários. Para concretizar esse potencial, a indústria da construção precisa investir em inovação, capacitação e uma cultura aberta à transformação digital. Somente assim será possível construir um ambiente mais eficiente, resiliente e genuinamente sustentável para as próximas gerações, transformando o setor de um grande poluidor em um verdadeiro agente de progresso.












