Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC) iniciaram um ensaio clínico de fase 2b para testar um implante ocular de células-tronco, finíssimo como um fio de cabelo, que visa restaurar a visão em pessoas com degeneração macular seca avançada. Esta condição, que afeta milhões, atualmente não possui tratamento eficaz para reverter os danos já estabelecidos.
A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é a principal causa de perda de visão e cegueira entre americanos com 65 anos ou mais, atingindo aproximadamente 200 milhões de pessoas em todo o mundo. A forma seca da doença, a mais prevalente, corresponde a 85-90% dos casos e se caracteriza por uma perda gradual da visão central, impactando significativamente a qualidade de vida ao dificultar tarefas como leitura e reconhecimento facial.
Enquanto a DMRI úmida, uma forma mais agressiva, já conta com tratamentos consolidados, a DMRI seca permanece um desafio. A nova pesquisa do Keck Medicine of USC, construída sobre estudos anteriores promissores, busca não apenas frear a progressão da doença, mas reverter os danos já causados à retina.
A ciência por trás da esperança: células-tronco e o epitélio pigmentar da retina
No cerne da DMRI seca está a disfunção e a morte progressiva das células do epitélio pigmentar da retina (EPR). Estas células, que formam uma camada única e hexagonal, são cruciais para a visão nítida e detalhada, pois fornecem suporte vital aos fotorreceptores, regulam nutrientes e resíduos, e absorvem o excesso de luz.
O implante em teste é composto por células-tronco embrionárias humanas, cultivadas em laboratório e desenvolvidas para se tornarem células EPR funcionais. Este patch ultra-fino é inserido cirurgicamente na retina, visando substituir as células danificadas e, assim, restaurar a função visual.
A Dra. Sun Young Lee, cirurgiã de retina da Keck Medicine e principal investigadora do estudo, expressou a esperança de que o implante “não só possa parar a progressão da degeneração macular seca relacionada à idade, mas realmente melhorar a visão dos pacientes”. [cite: ScienceDaily] Resultados de uma fase anterior do ensaio já indicaram que o implante é seguro, permanece firmemente posicionado e foi absorvido pelo tecido retiniano. Cerca de 27% dos participantes experimentaram algum nível de melhora visual. [cite: ScienceDaily]
O Dr. Rodrigo Antonio Brant Fernandes, oftalmologista e cirurgião do estudo, com vasta experiência em retina, glaucoma e cirurgia de catarata, destaca que o implante tem o potencial de “assumir o lugar das células danificadas, funcionar como células EPR normais e melhorar a visão para pacientes que atualmente podem não ter outras opções de melhora”. [cite: ScienceDaily, 4, 17]
Novas fronteiras no tratamento da degeneração macular seca
A busca por tratamentos eficazes para a DMRI seca é intensa. Recentemente, a fotobiomodulação com o dispositivo Valeda, que utiliza luz de baixa intensidade para estimular a atividade celular na retina, foi aprovada para tratar a DMRI seca e já está disponível no Brasil, mostrando-se capaz de melhorar a visão em alguns pacientes.
Além disso, novas injeções intravítreas, como pegcetacoplan e avacincaptad, foram aprovadas nos Estados Unidos para retardar a progressão da doença, embora não visem restaurar a visão perdida. Outras abordagens com células-tronco adultas, obtidas de tecido ocular doado post-mortem, também demonstraram resultados promissores em ensaios clínicos, com pacientes ganhando em média 21 letras na tabela de acuidade visual.
Estudos no Brasil, como o da Universidade de São Paulo (USP) em 2018, mostraram que o autotransplante de células-tronco derivadas da medula óssea, por injeção intraocular, pode levar à melhora da visão e estabilidade em pacientes com DMRI seca avançada. Esses avanços, incluindo o implante da USC, representam uma mudança de paradigma, saindo da gestão da progressão da doença para a potencial reversão dos danos.
O ensaio clínico da USC, que é mascarado e recruta pacientes entre 55 e 90 anos com DMRI seca avançada e atrofia geográfica, é um passo crucial nesse caminho. Acompanhamentos por pelo menos um ano permitirão avaliar a eficácia do implante em proporcionar melhorias significativas e duradouras na visão. [cite: ScienceDaily]
A promessa de restaurar a visão perdida devido à degeneração macular seca com um implante ocular minúsculo marca uma era de esperança para milhões. Embora o caminho da pesquisa clínica seja longo, os resultados preliminares e o avanço para a fase 2b do ensaio da USC indicam um futuro no qual a cegueira, antes irreversível, poderá ser desafiada por soluções inovadoras e regenerativas, elevando a qualidade de vida de muitos idosos.









