Uma proposta de imposto sobre a riqueza na Califórnia acendeu um debate feroz no Vale do Silício, com titãs da tecnologia ameaçando deixar o estado enquanto o governador democrata Gavin Newsom tenta barrar a medida, conforme noticiado pela FastCompany. O plano de cobrar 5% sobre os ativos de bilionários busca compensar cortes federais em saúde, mas enfrenta forte oposição do setor empresarial.

O estado dourado, epicentro tecnológico global, concentra mais bilionários do que qualquer outro nos EUA, e quase metade de sua receita de imposto de renda pessoal provém do 1% mais rico. Esta dependência financeira e a vasta disparidade entre ricos e pobres criam um cenário complexo para a iniciativa, que surge em um momento de ansiedade econômica e custos crescentes.

A iniciativa, liderada por um influente sindicato de saúde, propõe um imposto único de 5% sobre diversos ativos — incluindo ações, arte e propriedade intelectual — de bilionários que residiam no estado em 1º de janeiro. Contudo, ainda não está claro se a proposta alcançará a cédula eleitoral de novembro, necessitando de mais de 870.000 assinaturas para qualificação.

Ameaça de êxodo e o dilema econômico

A ameaça de um êxodo tem sido central na discussão, com líderes da tecnologia expressando preocupação. Aaron Levie, CEO da Box, alertou que a medida poderia afastar empreendedores e startups do Vale do Silício, mesmo aqueles com inclinações liberais, que a considerariam absurda por razões econômicas e estruturais, apesar da causa nobre. Uma “guerra de palavras” online já se instalou, com milhões de dólares fluindo para comitês políticos envolvidos na disputa, incluindo uma doação de US$ 3 milhões de Peter Thiel, cofundador do PayPal, para um grupo empresarial que se opõe ao imposto.

O governador Newsom, há muito tempo contrário a impostos sobre a riqueza em nível estadual, teme que tal medida desvantaje a Califórnia, a quarta maior economia do mundo. Ele acredita que tal política criaria uma desvantagem competitiva para o estado.

Analistas apontam que a saída de bilionários poderia resultar na perda de centenas de milhões em impostos, agravando o já incerto déficit orçamentário do estado e complicando o caminho de Newsom para uma possível candidatura presidencial em 2028.

A California Business Roundtable lidera a oposição, argumentando que o imposto “minaria a economia, decimiria o orçamento estadual e afastaria investimentos”, tornando a vida cotidiana mais cara para as famílias trabalhadoras. Este cenário se soma a um histórico de regulamentações rigorosas e alto custo de vida que já motivou movimentos de saída, como a mudança de Elon Musk e da Tesla para o Texas há alguns anos.

Divisão política e a defesa do imposto

A proposta também expôs uma profunda divisão dentro do Partido Democrata. Figuras proeminentes da ala progressista, como o senador Bernie Sanders, apoiam a medida, vendo-a como um modelo para outros estados em face da desigualdade.

Sanders afirmou que “nossa nação não prosperará quando tão poucos têm tanto enquanto tantos têm tão pouco”. O deputado Ro Khanna, potencial rival de Newsom em 2028, chegou a ridicularizar os bilionários que ameaçam fugir por conta de um imposto destinado à saúde de pessoas de baixa renda.

Em contrapartida, o Service Employees International Union (SEIU-United Healthcare Workers West), principal proponente do imposto, minimiza a ameaça de êxodo. Suzanne Jimenez, chefe de gabinete do sindicato, afirmou que a taxa é uma “resposta viável a uma crise criada pelo Congresso”.

Ela acrescentou que o imposto é essencial para “manter prontos-socorros abertos, hospitais com pessoal e sistemas de saúde funcionando”, garantindo serviços cruciais para a população de baixa renda.

O embate sobre o imposto bilionários na Califórnia reflete tensões sobre a desigualdade de riqueza, a sustentabilidade dos serviços públicos e o futuro econômico do estado. O desfecho desta batalha definirá o cenário fiscal californiano e poderá influenciar debates semelhantes em outras jurisdições. A decisão dos eleitores, caso a proposta chegue às urnas, será um indicativo crucial da direção que a Califórnia e, possivelmente, o país, escolherão para abordar esses desafios.