O envelhecimento altera silenciosamente o DNA, e a genética de cada indivíduo pode determinar se esse dano se manifesta lentamente ou em velocidade alarmante. Um estudo genético de larga escala recente, envolvendo mais de 900.000 pessoas, revelou que sequências de DNA em regiões específicas se expandem progressivamente com o passar dos anos.
A pesquisa aponta que variantes genéticas comuns podem modificar drasticamente a velocidade dessa expansão, multiplicando o ritmo em até quatro vezes, um fenômeno agora conhecido como a ‘regra 4x’. Esse processo está intrinsicamente ligado à instabilidade do DNA, um dos marcadores fundamentais do envelhecimento biológico.
Essas descobertas sugerem que a instabilidade do DNA relacionada à idade é muito mais prevalente do que se imaginava anteriormente, abrindo novas frentes para a compreensão e o combate a doenças crônicas.
A regra 4x e a influência genética na instabilidade do DNA
A análise genômica massiva, que incluiu dados de biobancos como o UK Biobank e o All of Us Research Program, permitiu aos cientistas rastrear mudanças no comprimento das repetições de DNA ao longo do tempo. Eles identificaram 29 regiões do genoma onde variantes genéticas herdadas alteravam as taxas de expansão, resultando em diferenças de até quatro vezes entre indivíduos com os maiores e menores riscos genéticos.
As regiões de DNA mais vulneráveis são compostas por sequências muito curtas que se repetem incessantemente, e o estudo mostrou que elas tendem a se alongar à medida que as pessoas envelhecem. Curiosamente, os mesmos genes de reparo do DNA não atuaram de maneira uniforme; variantes que estabilizavam algumas repetições tornavam outras mais instáveis.
A instabilidade genômica é um dos nove pilares que explicam a biologia do envelhecimento, conforme apontado por especialistas, e está associada à perda da integridade do genoma e à desregulação gênica. Compreender essa dinâmica é crucial para decifrar os mecanismos subjacentes ao declínio funcional do organismo com a idade.
Novas conexões com doenças: rins e fígado
Além de confirmar a influência genética na velocidade da instabilidade do DNA, a pesquisa estabeleceu ligações inéditas com condições de saúde graves. Os cientistas identificaram uma nova doença de expansão de repetição envolvendo o gene GLS, que afeta cerca de 0,03% da população.
Expansões nesse gene foram associadas a um aumento de 14 vezes no risco de doença renal grave e um aumento de 3 vezes no risco de doenças hepáticas. As doenças renais genéticas, por exemplo, representam um conjunto diversificado de mais de 500 distúrbios que podem surgir em diferentes fases da vida e com variados níveis de gravidade.
Repetições de DNA expandidas são responsáveis por mais de 60 distúrbios hereditários conhecidos, como a doença de Huntington, a distrofia miotônica e certas formas de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). A identificação de novas ligações, como as do gene GLS, reforça a importância de estudos genéticos de larga escala para desvendar riscos ocultos à saúde.
Os resultados deste estudo, publicado em janeiro de 2026, conforme noticiado pelo ScienceDaily, abrem caminho para o desenvolvimento de tratamentos que possam retardar o crescimento dessas repetições em doenças. As ferramentas computacionais desenvolvidas para a pesquisa podem ser aplicadas a outros grandes conjuntos de dados de biobancos para identificar mais repetições instáveis de DNA e os riscos de doenças relacionadas.
Estudos futuros precisarão aprofundar a compreensão de por que os mesmos modificadores genéticos podem ter efeitos opostos em diferentes repetições. Essa investigação se concentrará em como os processos de reparo do DNA variam entre tipos de células e contextos genéticos, prometendo insights valiosos para a medicina personalizada.











