Uma nova e intensa onda de protestos Irã afora, iniciada em dezembro de 2025, expõe uma dinâmica sem precedentes, com a população clamando pelo fim da República Islâmica em meio a uma profunda crise econômica. Desta vez, a resposta do governo do Presidente Masoud Pezeshkian tem se distinguido de levantes anteriores, marcando um ponto de virada na gestão da instabilidade interna.
Os manifestantes, inicialmente motivados pela inflação galopante e pela desvalorização histórica do rial, rapidamente escalaram suas demandas para além das questões financeiras, questionando a legitimidade do regime. A insatisfação é generalizada, abrangendo lojistas, comerciantes e estudantes que se juntaram ao movimento.
Diferentemente da repressão imediata e brutal vista no Movimento Verde de 2009 ou na revolta “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022, as forças de segurança iranianas demoraram a reagir aos protestos atuais. O presidente Pezeshkian adotou uma postura inicial de diálogo e propôs reformas de austeridade, buscando apaziguar a população.
A nova dinâmica interna e a resposta de Pezeshkian
A economia iraniana vive um colapso, com a inflação atingindo 42,2% em dezembro de 2025 e os preços dos alimentos subindo 72% em relação ao ano anterior. O rial iraniano despencou para um mínimo histórico, sendo negociado a aproximadamente 1,47 milhão de riais por dólar no mercado livre.
Essa deterioração econômica, resultado de décadas de má gestão, corrupção e sanções internacionais, é o principal catalisador dos protestos. O governo tentou medidas como a nomeação de Abdolnasser Hemmati para o Banco Central e a proposta de auxílios mensais, mas a população permanece cética.
A hesitação inicial do regime em reprimir violentamente os manifestantes, conforme observado por Vali Nasr, professor da Universidade Johns Hopkins, reflete um dilema vexatório. Uma repressão excessivamente dura poderia desfazer o “entendimento” forjado com a população após a guerra de 12 dias com Israel e os Estados Unidos em 2025. [cite: 10, 15, 25, 26, 29, www.project-syndicate.org]
Equilíbrio delicado em um cenário geopolítico volátil
A guerra de junho de 2025, que viu ataques israelenses a instalações nucleares iranianas e a participação dos EUA, expôs fragilidades militares do Irã e criou um complexo cenário geopolítico. O presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a ameaçar intervir militarmente caso a repressão aos protestos se intensificasse.
Essa ameaça externa coloca o regime iraniano em uma posição delicada: reprimir os protestos com força total pode ser interpretado como um convite à intervenção estrangeira, enquanto permitir que cresçam pode desestabilizar ainda mais o governo. O Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, acusou os manifestantes de serem “mercenários de estrangeiros” e alertou que o Irã não cederá.
No entanto, a crise econômica prolongada e a insatisfação generalizada representam um risco maior ao regime do que a possibilidade de uma intervenção americana, segundo David Roche, estrategista da Quantum Strategy. O corte da internet e o cancelamento de voos são sinais da crescente pressão sobre o governo.
A atual onda de protestos no Irã se diferencia das anteriores pela combinação de uma crise econômica devastadora, uma resposta governamental inicialmente mais contida e um cenário geopolítico tenso pós-guerra. O regime enfrenta o desafio de manter sua coesão interna e sua soberania em um momento de profunda desconfiança popular e ameaças externas. O futuro da República Islâmica dependerá de sua capacidade de navegar por essa complexa rede de pressões sem precedentes.











