A estrutura estratégica pós-guerra do Japão, antes um pilar de sua identidade global, encontra-se hoje em um estado de obsolescência perigosa. Diante de um cenário geopolítico em rápida transformação, marcado pela ascensão da China e a crescente tensão em torno de Taiwan, a nação nipônica não pode mais se dar ao luxo da confusão estratégica. Segundo o especialista Taniguchi Tomohiko, ex-Conselheiro Especial do Gabinete de Shinzo Abe, o Japão tem, no máximo, 12 anos para assegurar seu futuro, prevenindo a absorção completa de Taiwan pela China, um evento que moldaria decisivamente seu próprio destino.
Este prazo apertado sublinha a urgência para Tóquio reavaliar e redefinir sua postura, que permeia desde a política e economia até suas alianças e questões constitucionais. A ambiguidade estratégica que caracterizou grande parte do período pós-guerra, permitindo ao Japão focar em sua recuperação econômica sob o guarda-chuva de segurança dos EUA, é agora insustentável. O ambiente de segurança na vizinhança japonesa é descrito como o mais severo e complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com o rápido avanço militar e pressões unilaterais na região.
A ruptura com o pacifismo pós-guerra e a nova doutrina de defesa
Historicamente, a Constituição japonesa de 1947, imposta após a Segunda Guerra Mundial, consagrava no Artigo 9º a renúncia à guerra e à manutenção de forças armadas com potencial bélico. Contudo, interpretações sucessivas e as crescentes ameaças regionais levaram à formação das Forças de Autodefesa (FAD) e, mais recentemente, a uma reinterpretação que permite a autodefesa coletiva.
A Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de 2022 representa uma mudança drástica na política de defesa japonesa. O documento classifica a postura externa e as atividades militares da China como o “maior desafio estratégico sem precedentes” para a paz e segurança do Japão e da comunidade internacional. Para responder a isso, o Japão planeja dobrar seus gastos com defesa para 2% do PIB até 2027, alinhando-se aos compromissos dos membros da OTAN, e adquirir capacidades de contra-ataque.
Essa nova doutrina enfatiza a necessidade de o Japão mobilizar seu poder nacional abrangente, que inclui diplomacia, defesa, economia, tecnologia e inteligência, para proteger seus interesses. A mudança visa deter contingências e tentativas de alterar o status quo pela força, ao mesmo tempo em que fortalece a aliança com os Estados Unidos, considerada a pedra angular da segurança japonesa.
Taiwan: O epicentro da tensão e os riscos econômicos
A questão de Taiwan emergiu como um ponto focal crucial para a segurança do Japão. Tóquio passou a considerar Taiwan uma “fronteira estratégica” e uma “linha de defesa avançada” para o país. Declarações de autoridades japonesas sobre a importância da estabilidade de Taiwan têm provocado reações fortes de Pequim, que considera a ilha parte de seu território e um assunto interno.
Essas tensões não se limitam ao campo diplomático. A China tem respondido com pressões econômicas, como a restrição de exportações de itens de dupla utilização (com aplicações civis e militares) para o Japão. Essas medidas, que podem incluir terras raras e componentes eletrônicos avançados, destacam a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos japonesas e o uso da coerção econômica como ferramenta estratégica.
A instabilidade no Estreito de Taiwan e a crescente presença militar chinesa no Mar do Sul da China são vistas como ameaças diretas à liberdade de navegação e ao comércio global, vitais para a economia japonesa. A cooperação entre o Japão e os Estados Unidos no Indo-Pacífico busca evitar que essa rivalidade estratégica se transforme em um conflito de grandes proporções, num cenário já desafiador.
A era da confusão estratégica chegou ao fim para o Japão. A nação está em um ponto de inflexão, onde a clareza e a assertividade em sua política externa e de defesa são imperativas para navegar um cenário global cada vez mais volátil. A redefinição de sua estratégia não é apenas uma resposta às ameaças externas, mas uma afirmação de seu papel como uma potência responsável na manutenção da paz e da estabilidade regional e global, conforme destacado por Taniguchi Tomohiko em Project Syndicate.











