Em um cenário dominado pelo comércio eletrônico, as livrarias físicas desafiam as expectativas, apresentando um surpreendente ressurgimento. Longe de serem relíquias do passado, esses estabelecimentos mostram-se mais vibrantes do que nunca, provando que o apelo do livro impresso e da experiência de compra presencial persiste fortemente.

Há mais de 18 anos, Jeff Bezos, fundador da Amazon, descreveu os livros como o “último bastião do analógico” ao lançar o Kindle. Essa observação, feita em um artigo da Newsweek, ecoa em um mercado que, em 2025, surpreendeu positivamente, mantendo-se como um empreendimento notavelmente analógico, conforme reportado pelo New York Times.

Embora a Amazon controle mais de 50% das vendas de livros impressos e domine e-books e audiolivros, dados recentes contam uma história diferente para o formato tradicional.

Apesar da onipresença digital, o livro de papel mantém sua popularidade. Aproximadamente três quartos dos 707 milhões de livros vendidos no ano passado eram da variedade tradicional, até meados de dezembro. Além disso, a receita de e-books nos primeiros dez meses de 2025 representou apenas 11%, uma queda notável em relação aos 17% registrados em 2016.

O florescimento das livrarias e do papel

O cenário é de expansão para o varejo físico de livros. A American Booksellers Association, por exemplo, registrou um aumento de 422 novas livrarias independentes em suas fileiras. Grandes redes também investem: a Barnes & Noble abriu dezenas de novas unidades, com mais inaugurações a caminho.

Esses números sugerem que o apelo dos livros em sua forma clássica vai além da nostalgia ou da inércia do consumidor.

A experiência intrínseca de interagir com o meio físico é um diferencial que outras mídias, como música e filmes, não oferecem na mesma medida. Enquanto os e-books proporcionam conveniência, como portabilidade e custo reduzido, eles ainda falham em replicar a riqueza tipográfica e de layout do papel. Recursos digitais recentes, como o “Ask this book” do Kindle, impulsionado por IA, também demonstram deficiências, entregando respostas factualmente incorretas e sem citações, além de levantar questões sobre a compensação de autores.

A ‘enshittification’ e a busca por autenticidade

O termo “enshittification”, cunhado pelo autor Cory Doctorow, descreve como produtos de tecnologia tendem a se tornar hostis ao cliente ao longo do tempo. Doctorow sugere que a Amazon atingiu um “estágio terminal” desse fenômeno. A experiência de compra na plataforma, que já se autodenominou “a maior livraria da Terra”, agora é frequentemente descrita como caótica.

Resultados de busca são ofuscados por links patrocinados irrelevantes e livros gerados por IA, enquanto páginas de autores podem estar incompletas ou listar obras que não são de sua autoria. Essa deterioração da experiência online impulsiona a valorização do ambiente físico, onde a curadoria humana e a descoberta orgânica ainda são pilares.

Livrarias independentes e as renovadas Barnes & Noble oferecem espaços para explorar, interagir e se conectar com a cultura do livro de uma forma que o utilitarismo digital da Amazon não consegue mais suprir.

O renascimento das livrarias físicas e a resiliência do livro impresso destacam uma verdade fundamental: a tecnologia pode otimizar a conveniência, mas não substitui completamente a experiência tátil e social.

À medida que o ambiente digital se torna mais saturado e, por vezes, menos confiável, o refúgio das prateleiras repletas e o cheiro de papel novo prometem continuar atraindo leitores em busca de autenticidade e uma conexão mais profunda com a literatura.