Uma pesquisa recente aponta para um defensor surpreendente contra o envelhecimento cardíaco: o nervo vago. Um estudo inovador, coordenado pela Sant’Anna School of Advanced Studies em Pisa, Itália, sugere que manter a conexão neural entre o cérebro e o coração através deste pequeno nervo pode ser fundamental para preservar a juventude e a força do órgão vital. A descoberta, divulgada em 2026, promete redefinir abordagens em cirurgias cardíacas e transplantes.

Por muito tempo, o envelhecimento do coração foi visto como um processo inevitável, marcado pela perda gradual de células e da capacidade de bombeamento. No entanto, a ciência moderna tem buscado maneiras de mitigar esses efeitos, e a nova pesquisa lança luz sobre um caminho promissor. A integridade da conexão do nervo vago, especialmente no lado direito do coração, emerge como um fator decisivo, protegendo as células musculares cardíacas e mantendo a funcionalidade ao longo do tempo.

Os pesquisadores, liderados pelo Professor Vincenzo Lionetti, da Translational Critical Care Unit (TrancriLab), combinaram medicina experimental com bioengenharia avançada para desvendar esse mecanismo complexo. O trabalho, publicado na prestigiada Science Translational Medicine, não só identifica o nervo vago como um guardião crucial, mas também demonstra que mesmo uma restauração parcial de sua conexão pode trazer benefícios significativos, desacelerando mudanças prejudiciais no tecido cardíaco.

O papel vital do nervo vago na saúde cardíaca

A pesquisa enfatizou que a perda da conexão com o nervo vago acelera significativamente o envelhecimento cardíaco. Segundo o Professor Lionetti, “Quando a integridade da conexão com o nervo vago é perdida, o coração envelhece mais rapidamente”. Esse processo leva a um remodelamento prejudicial do tecido cardíaco e à diminuição da eficácia da contração muscular, fatores que contribuem para o desenvolvimento de doenças cardíacas relacionadas à idade. A importância do nervo vago direito, em particular, foi destacada por seu papel na proteção das células musculares cardíacas, independentemente da frequência cardíaca.

Um aspecto notável do estudo é a constatação de que uma recuperação total da conexão nervosa não é um pré-requisito para observar os benefícios. Anar Dushpanova, cardiologista do TrancriLab e coautora da pesquisa, explicou que “Mesmo uma restauração parcial da conexão entre o nervo vago direito e o coração é suficiente para neutralizar os mecanismos de remodelamento e preservar a contratilidade cardíaca eficaz”. Essa flexibilidade abre portas para intervenções menos invasivas e mais acessíveis no futuro, mudando o paradigma do tratamento para a prevenção do envelhecimento cardíaco prematuro.

Bioengenharia e o futuro da cirurgia cardíaca

A bioengenharia desempenhou um papel decisivo nessas descobertas. A equipe do Professor Silvestro Micera, do Biorobotics Institute, desenvolveu um conduto nervoso bioabsorvível implantável. Este dispositivo foi projetado para promover e guiar a regeneração espontânea do nervo vago torácico no nível cardíaco. Eugenio Redolfi Riva, coautor da patente da neuroprótese, destacou que o implante “promove e guia a regeneração espontânea do nervo vago torácico no nível cardíaco”, oferecendo uma solução prática para restaurar a integridade neural.

As implicações para a cirurgia cardiotorácica e de transplantes são profundas. A possibilidade de restaurar a inervação vagal cardíaca durante a cirurgia representa uma estratégia inovadora para a proteção cardíaca a longo prazo. Conforme o portal www.sciencedaily.com informou, o Professor Lionetti conclui que esses resultados “abrem novas perspectivas para a cirurgia cardiotorácica e de transplantes, sugerindo que a restauração da inervação vagal cardíaca no momento da cirurgia pode representar uma estratégia inovadora para a proteção cardíaca a longo prazo, mudando o paradigma clínico de gerenciar complicações tardias associadas ao envelhecimento cardíaco prematuro para a sua prevenção”. Essa abordagem proativa pode revolucionar a forma como a saúde do coração é gerenciada, especialmente em pacientes que passam por procedimentos complexos.

A pesquisa, que contou com o apoio de fundos do programa europeu FET (Future and Emerging Technologies) através do projeto NeuHeart, reforça a importância da colaboração interdisciplinar. Ela pavimenta o caminho para tratamentos que não apenas lidam com as consequências do envelhecimento cardíaco, mas buscam ativamente preservar a vitalidade do órgão, oferecendo uma nova esperança para a manutenção de um coração jovem e funcional por mais tempo. Para mais informações sobre a saúde cardíaca e suas nuances, a Sociedade Brasileira de Cardiologia oferece um vasto material de apoio.