Pesquisadores da Universidade Rockefeller descobriram uma abordagem inovadora para o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sugerindo que acalmar a atividade cerebral, em vez de estimulá-la, pode ser o caminho para um foco aprimorado. Publicado na Nature Neuroscience, o estudo genético identificou o gene Homer1 como crucial, abrindo portas para um novo tratamento TDAH. Esta pesquisa, detalhada pelo portal ScienceDaily em 2 de janeiro de 2026, oferece uma perspectiva radicalmente diferente das terapias atuais.
As abordagens convencionais para transtornos de atenção, como o TDAH, frequentemente visam aumentar a atividade em circuitos cerebrais que controlam o foco, especialmente no córtex pré-frontal. Contudo, a nova pesquisa aponta para uma solução inversa: reduzir a atividade basal do cérebro para diminuir o “ruído” mental e, consequentemente, melhorar a capacidade de concentração. Essa mudança de paradigma pode redefinir o entendimento e as estratégias terapêuticas para condições que afetam milhões de pessoas globalmente.
A atenção depende da capacidade do cérebro de filtrar distrações e responder a sinais relevantes, um processo que se torna desafiador quando há um excesso de informações de fundo. A descoberta de que um cérebro mais calmo pode ser mais eficaz na separação de sinais significativos de entradas constantes desafia a lógica predominante, sugerindo que a hiperatividade neural pode ser um obstáculo, e não um pré-requisito, para o foco.
O gene Homer1 e a calma neural para um novo tratamento TDAH
O estudo, liderado por Priya Rajasethupathy, chefe do Skoler Horbach Family Laboratory of Neural Dynamics and Cognition na Rockefeller, revelou que o gene Homer1 desempenha um papel significativo na atenção, influenciando o quão “silencioso” ou “barulhento” o cérebro está em repouso. Ratos com níveis reduzidos de duas formas específicas deste gene, Homer1a e Ania3, apresentaram uma atividade cerebral mais calma e um desempenho superior em tarefas que exigem foco. “O gene que encontramos tem um efeito impressionante na atenção e é relevante para humanos”, afirma Rajasethupathy, conforme citado na pesquisa.
A equipe de pesquisa, incluindo o estudante de doutorado Zachary Gershon, realizou uma análise genômica extensiva em quase 200 camundongos, representando uma diversidade genética que permitiu a emergência de influências genéticas sutis. Esta abordagem “hercúlea”, como descreveu Rajasethupathy, identificou um padrão claro: os camundongos com melhor desempenho em tarefas de atenção tinham níveis significativamente mais baixos de Homer1 no córtex pré-frontal, uma região cerebral vital para o foco. Essa porção do DNA explicou quase 20% da variação na atenção entre os animais, um efeito considerado “enorme” pelos cientistas, como detalhado no Nature Neuroscience.
A temporalidade da intervenção mostrou-se crucial. A redução experimental de Homer1a e Ania3 durante um breve período de desenvolvimento na adolescência dos camundongos resultou em animais mais rápidos, precisos e menos distraídos em diversos testes comportamentais. No entanto, fazer as mesmas alterações em camundongos adultos não produziu benefícios, indicando que o Homer1 exerce sua influência na atenção durante uma janela limitada da vida inicial. Essa descoberta sugere que o novo tratamento TDAH pode ter maior eficácia se aplicado em fases específicas do desenvolvimento.
Mecanismo de ação: Mais receptores GABA, menos ruído
A compreensão de como o Homer1 afeta as células cerebrais trouxe o insight mais inesperado da pesquisa. A diminuição dos níveis de Homer1 nos neurônios do córtex pré-frontal levou a um aumento de receptores GABA, que atuam como os “freios moleculares” do sistema nervoso. Essa mudança resultou na redução de disparos de fundo desnecessários, enquanto preservava explosões de atividade fortes e focadas quando surgiam sinais importantes. Em vez de responder constantemente, os neurônios conservaram sua atividade para momentos que realmente exigiam atenção, otimizando o processamento de informações.
Esse mecanismo de “silenciamento” neural oferece uma base biológica sólida para a nova abordagem. Ao invés de tentar forçar o cérebro a aumentar a atividade para focar, a estratégia reside em eliminar o ruído de fundo que impede a clareza. As implicações dessa descoberta vão além do TDAH, pois o Homer1 também tem sido associado a outros transtornos que envolvem diferenças no processamento sensorial precoce, como o autismo e a esquizofrenia, abrindo um leque de possibilidades para futuras pesquisas e intervenções terapêuticas. A Universidade Rockefeller continua a ser um polo de inovação na neurociência.
A descoberta do papel do gene Homer1 na modulação do foco através do silenciamento neural representa um avanço significativo na neurociência e na busca por um novo tratamento TDAH. Ao focar na redução do “ruído” cerebral, em vez de sua estimulação, esta pesquisa oferece uma nova esperança para indivíduos com TDAH e outros transtornos de atenção. Os próximos passos envolverão aprofundar o entendimento sobre a janela de desenvolvimento crítica e explorar a viabilidade de terapias baseadas nesta modulação genética, pavimentando o caminho para intervenções mais eficazes e com menos efeitos colaterais.











