A chegada de novos medicamentos revolucionários para a obesidade no Reino Unido, como o Mounjaro, levanta sérias preocupações sobre a equidade no acesso, com especialistas alertando para a criação de um sistema de duas camadas onde a riqueza pode ditar o tratamento. Esta situação, destacada por pesquisadores do King’s College London, ameaça aprofundar as desigualdades de saúde existentes, segundo o www.sciencedaily.com.
A obesidade é uma crise global de saúde pública, ligada a doenças graves como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. Um estudo internacional divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2024 revelou que mais de 1 bilhão de pessoas são obesas no mundo, um dado alarmante que sublinha a urgência de ações eficazes. A introdução de tratamentos eficazes como a tirzepatida (Mounjaro) foi celebrada, mas a implementação no Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico revela uma disparidade alarmante.
Enquanto mais de 1,5 milhão de pessoas no Reino Unido já buscam esses novos medicamentos de forma privada, o NHS prevê atender apenas cerca de 200 mil pacientes nos primeiros três anos do programa, evidenciando uma lacuna significativa entre a demanda e a oferta pública. Essa diferença levanta questões cruciais sobre quem realmente se beneficia dos avanços científicos.
Critérios rigorosos e o sistema de duas camadas
Os critérios atuais do NHS para o Mounjaro exigem um Índice de Massa Corporal (IMC) de 40 ou superior, ou 35 com pelo menos uma condição relacionada à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doença cardiovascular ou apneia obstrutiva do sono. Para algumas minorias étnicas, o limite de IMC pode ser reduzido para 37,5. Este modelo, embora atenda casos de obesidade severa, exclui muitos indivíduos com riscos significativos que não se enquadram em todas as exigências.
Essa limitação pode criar um cenário onde a capacidade financeira se torna o principal fator para o acesso ao tratamento, conforme alertado por especialistas do King’s College London e da Obesity Management Collaborative (OMC-UK) em editorial publicado no British Journal of General Practice (BJGP). A elegibilidade para Mounjaro no NHS é estrita, contrastando com a flexibilidade dos prestadores privados.
Aprofundamento das desigualdades em saúde
Dr. Laurence Dobbie, pesquisador do King’s College London, aponta que a abordagem atual pode, involuntariamente, tornar o cuidado da obesidade menos justo. Ele destaca que as condições usadas para “filtrar” o acesso ao Mounjaro são frequentemente subdiagnosticadas em mulheres, minorias étnicas, pessoas de baixa renda e pacientes com doenças mentais graves. Relatórios indicam que as desigualdades na saúde no Reino Unido já causaram mais de um milhão de mortes precoces entre 2011 e 2019.
Professora Barbara McGowan, da mesma instituição, reforça que a obesidade é uma condição crônica complexa que demanda acesso equitativo ao tratamento para todos que precisam, não apenas para quem pode pagar. Ela enfatiza a necessidade urgente de um modelo mais inclusivo e escalável, garantindo que tratamentos eficazes sejam acessíveis em todas as comunidades, especialmente aquelas que já enfrentam barreiras sistêmicas à saúde. A Associação Médica Britânica (BMA) também tem fornecido orientações para GPs sobre a prescrição de Mounjaro, reconhecendo a complexidade da implementação.
A promessa de novos medicamentos para obesidade é imensa, mas sua implementação no Reino Unido expõe um desafio crítico: a garantia de que a inovação médica beneficie a todos, e não apenas uma parcela privilegiada. É imperativo que as políticas de saúde evoluam para além dos critérios restritivos, priorizando a necessidade médica sobre a capacidade financeira, a fim de evitar um abismo ainda maior nas desigualdades de saúde. O futuro do tratamento da obesidade dependerá de um esforço conjunto para tornar esses avanços verdadeiramente acessíveis e equitativos para a população global.










