O oceano, por muito tempo relegado a um papel secundário nas discussões climáticas globais, finalmente assume a centralidade que sua influência no planeta exige. Eventos recentes, como a COP30, sublinham uma mudança de paradigma, onde a compreensão de que o destino do clima está intrinsecamente ligado à saúde dos nossos mares se tornou inegável. Essa transição marca o fim de uma era em que a política climática focava quase exclusivamente na redução de emissões e na preservação de florestas, negligenciando a vasta massa de água que cobre 71% da superfície terrestre.

Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor do sistema climático e cerca de um terço do dióxido de carbono antropogênico, funcionando como um regulador climático essencial. No entanto, essa capacidade de tamponamento está em risco devido às emissões descontroladas de gases de efeito estufa, que impulsionam o aquecimento, a acidificação e o aumento do nível do mar, com impactos severos em ecossistemas e comunidades costeiras.

A percepção da urgência é crescente, e a integração do oceano na agenda climática global é vista como um imperativo. A ciência tem demonstrado consistentemente que, sem a ação dos oceanos, o CO2 atmosférico seria quase o dobro do valor pré-industrial, e o aquecimento global ultrapassaria em muito a meta de 2°C, com consequências catastróficas.

A ascensão das soluções oceânicas e os desafios da governança

Na COP30, as soluções baseadas no oceano atraíram atenção e investimentos significativos, sinalizando uma nova era para a governança climática. A CEO da COP30, Ana Toni, enfatizou a importância de se investir em ciência oceânica e soluções marinhas, destacando o potencial dos manguezais para armazenar mais carbono do que florestas terrestres. O Brasil, como país-sede da conferência, tem liderado a agenda, incorporando o tema em seu Plano Clima e na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que inclui soluções baseadas no oceano.

Especialistas como Kilaparti Ramakrishna, do Woods Hole Oceanographic Institution, observam a forte presença do oceano em discussões, eventos e pavilhões da COP30, descrevendo-a como “impressionante”. Segundo Ramakrishna, apesar do avanço no reconhecimento do mar como aliado crucial, ainda é preciso progredir para que o oceano esteja no centro da agenda dos governos, conforme destacado em um artigo no Project Syndicate. As soluções incluem a proteção de ecossistemas costeiros que armazenam carbono, a promoção da pesca sustentável e o desenvolvimento de energias renováveis offshore, como a eólica e das ondas.

Impactos crescentes e a necessidade de ação coordenada

Os oceanos enfrentam uma série de ameaças agravadas pelas mudanças climáticas, incluindo a acidificação das águas, a desoxigenação e o aumento de ondas de calor marinhas, que afetam diretamente a biodiversidade e a segurança alimentar. A professora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ressalta que os oceanos pagam um preço muito alto por mitigar o clima, absorvendo calor e CO2. O aquecimento oceânico atingiu níveis recordes em 2024, contribuindo para a elevação média do nível do mar em 4,7 mm por ano entre 2015 e 2024.

A governança oceânica, no entanto, ainda é fragmentada, o que dificulta respostas eficazes aos desafios climáticos. É fundamental a criação de estruturas de governança mais inclusivas e equitativas para salvaguardar esse sistema planetário crítico. A colaboração internacional, a valorização da ciência e o engajamento de comunidades locais, incluindo povos tradicionais e pescadores artesanais, são essenciais para construir um futuro resiliente.

A crescente conscientização sobre o papel indispensável do oceano no equilíbrio climático global aponta para um futuro onde sua proteção será uma prioridade inquestionável. A integração de soluções baseadas na ciência e o fortalecimento da governança oceânica são passos cruciais para que a humanidade consiga mitigar os impactos das mudanças climáticas e garantir a sustentabilidade do planeta. O debate agora se volta para como acelerar essas ações e garantir que o compromisso se traduza em resultados tangíveis para a saúde dos oceanos e, consequentemente, da Terra.