Apesar das previsões generalizadas de um colapso econômico, a economia dos Estados Unidos resistiu em grande parte às tarifas de Trump impostas durante sua presidência. Economistas apontam para uma combinação de fatores, incluindo o escopo limitado das taxações e uma robusta demanda doméstica, como chaves para essa resiliência inesperada.

Entre 2018 e 2019, o governo Trump impôs tarifas sobre bilhões de dólares em produtos importados, principalmente da China, mas também sobre aço e alumínio de diversos países. A expectativa era que essas medidas protecionistas pudessem desencadear uma guerra comercial global, desestabilizando cadeias de suprimentos e elevando custos para consumidores e empresas americanas, com potencial de frear o crescimento do PIB e aumentar o desemprego. No entanto, os dados econômicos do período mostraram um cenário mais complexo do que o previsto pelos críticos mais alarmistas.

Ainda que alguns setores tenham sofrido impactos significativos, a performance geral da economia americana permaneceu forte, com taxas de desemprego em mínimas históricas e um crescimento do PIB que, embora oscilante, evitou uma recessão. Compreender os mecanismos por trás dessa aparente contradição é crucial para analisar a eficácia e as consequências de políticas comerciais agressivas.

O escopo limitado e a resiliência da economia americana

Um dos principais motivos pelos quais as tarifas de Trump não provocaram uma crise econômica generalizada reside no seu alcance. As tarifas, embora substanciais em valor, cobriram uma parcela relativamente pequena do vasto comércio total dos EUA e, mais importante, uma fatia ainda menor da economia interna. De acordo com análises do Peterson Institute for International Economics (PIIE), as tarifas afetaram cerca de 0,5% do PIB dos EUA. Em uma economia de 20 trilhões de dólares, esse impacto, embora não desprezível, não foi suficiente para desencadear um efeito dominó catastrófico.

A resiliência intrínseca da economia americana também desempenhou um papel vital. Com um forte consumo interno, impulsionado por um mercado de trabalho aquecido e pela confiança do consumidor, a demanda doméstica conseguiu absorver grande parte do choque. Além disso, a política fiscal expansionista do governo, notadamente os cortes de impostos de 2017, injetou liquidez na economia, atuando como um contrapeso aos ventos contrários gerados pelas tarifas. “Os cortes de impostos foram um estímulo fiscal significativo que ajudou a mitigar os efeitos negativos das tarifas, especialmente no curto prazo”, observou um relatório do Congressional Budget Office (CBO) sobre as perspectivas econômicas da época.

Impactos setoriais e fatores mitigadores

Embora a economia como um todo tenha demonstrado robustez, é inegável que as tarifas de Trump causaram dores consideráveis em setores específicos. Agricultores, por exemplo, foram duramente atingidos pelas tarifas retaliatórias da China sobre produtos como a soja, resultando em perdas significativas e exigindo pacotes de auxílio governamental. Indústrias que dependiam de importações de aço e alumínio, como a automobilística e a de construção, viram seus custos aumentarem. Um estudo da Federal Reserve Board indicou que, embora o emprego na manufatura tenha tido um breve aumento inicial, a incerteza comercial e os custos mais altos acabaram por frear o investimento e a contratação em algumas áreas.

Diversos fatores ajudaram a mitigar os efeitos mais severos. Muitos exportadores e importadores conseguiram ajustar suas cadeias de suprimentos, buscando fontes alternativas ou mercados para seus produtos. Empresas americanas, em alguns casos, absorveram parte dos custos das tarifas para evitar repassar aumentos completos aos consumidores, corroendo margens de lucro, mas mantendo a competitividade de preços. A valorização do dólar também ajudou a compensar alguns custos de importação. Além disso, a política monetária do Federal Reserve, que manteve as taxas de juros baixas durante boa parte do período, forneceu um ambiente favorável ao crédito e ao investimento, contribuindo para a estabilidade.

A experiência com as tarifas de Trump serve como um lembrete da complexidade das interconexões econômicas globais. Longe de um colapso, a economia dos EUA demonstrou uma notável capacidade de adaptação, impulsionada por sua escala, forte demanda interna e políticas fiscais e monetárias que, intencionalmente ou não, amorteceram os choques. Embora os custos tenham sido reais para setores específicos e a incerteza comercial tenha persistido, a ausência de uma catástrofe econômica generalizada sublinha que o impacto de medidas protecionistas é multifacetado e raramente se manifesta de forma linear. As futuras administrações certamente se debruçarão sobre essa lição ao considerar novas abordagens para a política comercial.