A quimioterapia, conhecida por seus efeitos colaterais no intestino, pode estar secretamente treinando o sistema imunológico para combater a metástase do câncer, segundo descobertas recentes. Pesquisadores da Universidade de Lausanne revelaram que o dano intestinal induzido pelo tratamento altera as bactérias do intestino, fortalecendo as defesas anticancerígenas do corpo.
Este mecanismo inovador sugere que os efeitos colaterais gastrointestinais, muitas vezes vistos como um problema localizado, possuem implicações sistêmicas profundas na luta contra a disseminação tumoral. A pesquisa, detalhada em um estudo publicado na ScienceDaily em 24 de janeiro de 2026, destaca como a alteração na disponibilidade de nutrientes no intestino força as bactérias residentes a se adaptarem.
Essa adaptação modifica a composição e o comportamento da microbiota. Uma mudança crucial é o aumento na produção de ácido indol-3-propiônico (IPA), um composto microbiano derivado do aminoácido triptofano. O IPA não permanece confinado ao intestino, agindo como um sinal que viaja pelo corpo até a medula óssea, onde as células imunes são produzidas.
Níveis mais altos de IPA alteram a mielopoiese, diminuindo a produção de monócitos imunossupressores. Esses monócitos normalmente auxiliam as células cancerosas a escapar das defesas imunológicas e apoiam o crescimento de metástases.
A remodelação da microbiota intestinal pela quimioterapia, portanto, inicia uma série de eventos que reprograma a imunidade. Isso torna o corpo menos permissivo à metástase, um avanço significativo na compreensão dos tratamentos oncológicos.
O papel do IPA na reprogramação imune
Ludivine Bersier, primeira autora do estudo, expressou surpresa sobre como um efeito colateral da quimioterapia, frequentemente considerado um dano colateral, pode desencadear uma resposta sistêmica tão estruturada. O aumento do IPA, um sinal microbiano, impacta diretamente a medula óssea, alterando a produção de células imunes.
Essa mudança na produção de células imunes impulsiona a atividade das células T e modifica a interação das células imunes em áreas propícias à disseminação do câncer.
O efeito é particularmente notável no fígado, um local comum para metástases. Em modelos pré-clínicos, essas alterações criam condições resistentes ao crescimento metastático, oferecendo novas perspectivas para alvos terapêuticos.
A pesquisa ressalta que o eixo intestino-medula óssea-fígado desempenha um papel fundamental. Ela revela como a quimioterapia pode gerar efeitos duradouros em todo o corpo, redefinindo o entendimento de suas ações.
Isso sugere novas abordagens para utilizar metabólitos derivados da microbiota como estratégias de apoio. Tais estratégias visam limitar a progressão metastática, abrindo portas para tratamentos mais eficazes contra o câncer.
Evidências em pacientes e futuro potencial
As descobertas de estudos laboratoriais foram corroboradas por dados de pacientes, confirmando a relevância clínica. Em colaboração com o Dr. Thibaud Koessler, dos Hospitais Universitários de Genebra (HUG), a equipe analisou dados de pacientes com câncer colorretal.
Aqueles com níveis mais elevados de IPA na corrente sanguínea após a quimioterapia apresentaram níveis mais baixos de monócitos. Este perfil imunológico está associado a melhores resultados de sobrevida, indicando um impacto direto na recuperação dos pacientes.
Tatiana Petrova, autora correspondente do estudo, enfatiza que este trabalho demonstra que os efeitos da quimioterapia se estendem muito além do tumor em si.
A equipe propõe que a quimioterapia pode criar uma forma de “memória” biológica, impulsionada por metabólitos produzidos por micróbios intestinais. Esses metabólitos continuam a suprimir o crescimento metastático ao longo do tempo.
Essa compreensão abre caminho para estratégias inovadoras que poderiam explorar a microbiota para limitar a disseminação do câncer de forma duradoura.
A pesquisa recebeu apoio de organizações como a Fundação Nacional Suíça de Ciência e a Liga Suíça contra o Câncer, permitindo uma colaboração estreita entre a pesquisa clínica e básica.
A identificação desse eixo funcional intestino-medula óssea-sítios metastáticos oferece uma nova perspectiva sobre como otimizar os tratamentos existentes.
Isso também sugere o desenvolvimento de terapias complementares que aproveitem o poder das bactérias intestinais para fortalecer a imunidade anticâncer. Este avanço marca um futuro promissor na oncologia, com foco em abordagens mais integradas.







