Uma abordagem mais inteligente para o rastreamento do câncer de mama está emergindo, prometendo revolucionar a detecção precoce. Um estudo inovador aponta que a triagem personalizada, baseada em genética, histórico de saúde e estilo de vida, supera a mamografia anual universal, reduzindo casos avançados da doença. Esta pesquisa, coordenada pela UCSF, sinaliza uma transformação nas diretrizes clínicas.

Por décadas, as diretrizes de rastreamento do câncer de mama assumiram que a maioria das mulheres enfrentava riscos semelhantes, utilizando a idade como fator decisivo. No entanto, pesquisas há muito tempo demonstram que o risco de câncer de mama varia significativamente entre indivíduos, tornando a abordagem padronizada menos eficiente. A doença permanece como o câncer mais diagnosticado entre mulheres nos Estados Unidos, excluindo os de pele.

Agora, a ciência avança para um modelo que reconhece essa heterogeneidade. Os resultados da primeira fase do estudo WISDOM, que envolveu 46.000 mulheres em todo o país, indicam que adaptar a frequência do rastreamento ao risco individual pode ser mais seguro e eficaz. Esta mudança promete otimizar recursos e, mais importante, salvar vidas ao identificar a doença em estágios menos agressivos.

A personalização como chave para a prevenção

A pesquisa, publicada em 12 de dezembro no JAMA e apresentada no Simpósio de Câncer de Mama de San Antonio, comparou diretamente a mamografia anual tradicional com uma estratégia de rastreamento baseada no risco individual. Utilizando modelos de risco validados, as participantes foram agrupadas em quatro categorias, considerando idade, informações genéticas, fatores de estilo de vida, histórico de saúde e densidade mamária.

Mulheres no grupo de menor risco, representando 26% das participantes, foram orientadas a adiar o rastreamento até os 50 anos ou até que um algoritmo indicasse que seu risco havia atingido o de uma mulher típica de 50 anos. Aquelas com risco médio (cerca de 62%) foram aconselhadas a realizar o rastreamento a cada dois anos.

Para as 8% classificadas com risco elevado, mamografias anuais foram recomendadas. Já o grupo de maior risco, que representava 2% das participantes, foi aconselhado a receber triagem duas vezes por ano, alternando entre mamografia e ressonância magnética, independentemente da idade. Este modelo direciona recursos de forma mais eficiente.

As participantes identificadas com risco elevado ou altíssimo também receberam orientação personalizada para reduzir suas chances de desenvolver câncer de mama. Isso incluiu acesso a uma ferramenta online de tomada de decisão e contato direto com um especialista em saúde da mama, com recomendações sobre mudanças no estilo de vida e discussões sobre medicamentos preventivos.

Além do histórico familiar: o papel da genética

Um dos achados mais notáveis do estudo WISDOM, que desde 2016 já inscreveu mais de 80.000 mulheres, foi a revelação de que 30% das mulheres que testaram positivo para uma variante genética ligada a um risco maior de câncer de mama não relataram histórico familiar da doença. Segundo informações do www.sciencedaily.com, isso desafia as diretrizes clínicas atuais.

Muitas dessas mulheres, sob as diretrizes vigentes, não seriam consideradas de alto risco, perdendo a oportunidade de intervenções precoces. A inclusão recente de mulheres a partir dos 30 anos no estudo visa identificar aquelas que podem enfrentar um risco aumentado de cânceres precoces e agressivos devido a variantes genéticas hereditárias.

A diretora do UCSF Breast Care Center e primeira autora do estudo, Laura J. Esserman, MD, MBA, enfatiza que esta abordagem personalizada, que começa com a avaliação de risco, incorporando fatores genéticos, biológicos e de estilo de vida, pode guiar estratégias de prevenção mais eficazes e transformar as práticas clínicas.

O estudo WISDOM não apenas valida a eficácia do rastreamento personalizado na redução de cânceres avançados sem aumentar o risco para quem é rastreado com menos frequência, mas também aponta para uma forte aceitação do modelo: 89% das mulheres que optaram por uma estratégia preferida escolheram a baseada em risco. Esta é uma evidência clara de que o futuro do rastreamento do câncer de mama está na precisão e na individualização.