Min-Liang Tan, CEO da Razer, uma das gigantes em periféricos para jogos, fez uma declaração contundente sobre a percepção dos consumidores em relação à inteligência artificial (IA) no universo dos games. Ele afirma que os jogadores estão fartos do que chamou de “IA slop”, ou conteúdo genérico e de baixa qualidade gerado por IA, mas demonstram interesse em ferramentas que auxiliam desenvolvedores a criar experiências memoráveis. A discussão reflete um debate crescente na indústria sobre o papel da IA no futuro dos jogos, especialmente após o recente investimento de 600 milhões de dólares da Razer na área de inteligência artificial, que prevê a contratação de 150 engenheiros especializados.
A visão de Tan, compartilhada no podcast Decoder do The Verge, destaca uma importante nuance: enquanto há resistência ao conteúdo “plastificado” pela IA, existe um desejo latente por inovações que aprimorem a qualidade final dos títulos. Em um cenário onde 73,9% dos brasileiros jogam algum tipo de jogo digital e 68% utilizam ferramentas de IA em seu cotidiano, conforme a Pesquisa Game Brasil (PGB) de 2024, a distinção feita por Tan é crucial para entender a demanda do mercado.
A indústria de games, avaliada em bilhões, está no limiar de uma revolução impulsionada pela IA. No entanto, a forma como essa tecnologia é integrada define sua aceitação. A aposta da Razer em IA não visa substituir a criatividade humana, mas sim fornecer recursos que permitam aos criadores focar no que realmente importa: a inovação e a imersão.
A distinção entre “IA slop” e ferramentas de apoio
Min-Liang Tan foi explícito ao definir o que os jogadores rejeitam: “modelos de personagens com dedos extras ou histórias mal escritas”. Esse tipo de “IA slop” desengaja o jogador e compromete a imersão. Em contrapartida, Tan defende o uso de ferramentas de IA que “ajudem a aumentar ou apoiar, e ajudem os desenvolvedores de jogos a fazer grandes jogos”.
As ferramentas que os consumidores acolhem, segundo o CEO, são aquelas que otimizam processos cruciais. Isso inclui, por exemplo, aprimorar a garantia de qualidade (QA) para identificar e eliminar bugs mais rapidamente, verificar erros de digitação e, em última instância, permitir que os desenvolvedores criem jogos melhores. Em agosto de 2025, a Razer, em parceria com a Side, lançou uma solução de testes de jogadores que utiliza IA para processar feedback, visando reduzir custos e acelerar a detecção de problemas.
Essa abordagem “human-in-the-loop”, onde a IA complementa o trabalho humano, é vista como o caminho para o avanço da indústria. A tecnologia pode, por exemplo, auxiliar na geração procedural de mundos e no design de níveis, tarefas que consomem tempo e recursos, liberando os desenvolvedores para aprimorar aspectos criativos e narrativos dos jogos.
O panorama da IA na indústria de jogos
Apesar do ceticismo de alguns criadores, como Josef Fares de It Takes Two, que questiona o avanço real da IA generativa nos últimos anos, a adoção da inteligência artificial na indústria de jogos é uma realidade. Um relatório recente da GDC indicou que 52% das desenvolvedoras já utilizam IA em seus processos, com 41% aplicando-a na produção.
No entanto, a implementação não tem sido isenta de controvérsias. Títulos de alto perfil, como Arc Raider, que empregaram IA, enfrentaram críticas significativas, levando o CEO da Embark Studios, Patrick Soderlund, a reiterar que a IA não está sendo usada para substituir criadores humanos. Há também um movimento crescente de jogadores no Steam pedindo filtros que indiquem o uso de IA generativa nos jogos, refletindo a preocupação com a qualidade e a originalidade.
A transparência é fundamental. Plataformas como a Apple Store e Xbox Store já solicitam a divulgação do uso de IA em jogos, e a inclusão de avisos como “Este jogo utiliza conteúdos gerados com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial” pode ajudar a alinhar as expectativas do público e construir uma reputação responsável.
A posição da Razer de focar em ferramentas que capacitam os desenvolvedores a criar jogos excelentes, em vez de depender de conteúdo gerado por IA de forma indiscriminada, aponta para um futuro onde a tecnologia atua como um catalisador para a criatividade humana. A IA, quando bem aplicada, pode ser a chave para mundos mais complexos, testes mais eficientes e, em última análise, experiências de jogo mais ricas e envolventes para os consumidores. O desafio reside em equilibrar a inovação com a ética e a qualidade, garantindo que a IA sirva à arte do jogo, e não o contrário.











