As proibições e severas restrições de entrada de nacionais de dezenas de países nos Estados Unidos, expandidas pela administração Trump, foram justificadas como medidas para mitigar ameaças à segurança nacional e à ordem pública. Contudo, essa narrativa é cada vez mais contestada por analistas e especialistas em segurança, que veem nas restrições de viagem de Trump uma política com viés etnonacionalista, potencialmente prejudicial à própria segurança do país.

A lista de nações-alvo, que se estendeu para mais de 20 países, levanta sérias dúvidas sobre os critérios de seleção. Críticos argumentam que a ausência de restrições a países com laços comerciais ou propriedades da marca Trump, mesmo aqueles com histórico de problemas de segurança, sugere que as motivações podem ir além da proteção nacional, misturando interesses pessoais com a política externa. Essa abordagem, conforme apontado por Brahma Chellaney no www.project-syndicate.org em janeiro de 2026, transforma medidas antiterrorismo em ferramentas de política etnonacionalista, minando a credibilidade e a eficácia das ações do governo.

A complexidade da segurança nacional exige uma estratégia multifacetada, que abranja desde a inteligência e a diplomacia até a cooperação internacional. As restrições de viagem de Trump, ao invés de fortalecer essa estrutura, parecem desmantelá-la, gerando desconfiança e isolamento. Este cenário levanta a questão crucial sobre como tais políticas impactam a capacidade dos EUA de identificar e neutralizar ameaças reais.

O custo para a inteligência e a segurança nacional

Longe de blindar o país, as restrições de viagem de Trump podem, paradoxalmente, enfraquecer a segurança nacional. Um dos maiores riscos reside na deterioração das relações com aliados cruciais, que são parceiros indispensáveis na troca de informações de inteligência. Quando os Estados Unidos marginalizam nações e suas populações com base em generalizações, a cooperação em áreas sensíveis como o contraterrorismo e a segurança cibernética é comprometida.

Analistas do Council on Foreign Relations, por exemplo, destacam que a inteligência humana, muitas vezes obtida por meio de redes de contatos e cooperação internacional, é vital. Ao dificultar a entrada de pesquisadores, acadêmicos e até mesmo refugiados em busca de asilo, o país perde a oportunidade de acolher indivíduos que poderiam fornecer informações valiosas ou contribuir para a compreensão cultural de regiões complexas. Além disso, as proibições podem alimentar o ressentimento e a radicalização em certas comunidades, criando um ambiente mais propício para o extremismo, ao invés de suprimi-lo. Em um relatório de 2020, o Government Accountability Office (GAO) apontou desafios na justificativa e na avaliação de impacto dessas políticas.

Impacto econômico e reputacional das restrições de viagem de Trump

As restrições de viagem de Trump também impõem um custo econômico e reputacional significativo aos Estados Unidos. A redução no número de estudantes internacionais, turistas e profissionais qualificados afeta setores importantes da economia, desde universidades até a indústria do turismo e tecnologia. Universidades americanas, por exemplo, registraram quedas nas matrículas de estudantes de países afetados, perdendo talentos e receitas que impulsionam a pesquisa e a inovação. Segundo dados do Institute of International Education, o número de novos estudantes internacionais tem sido impactado nos últimos anos.

Em um nível mais amplo, a imagem dos EUA como uma nação acolhedora e um farol de oportunidades é corroída. Essa erosão do “soft power” americano dificulta a diplomacia e a construção de alianças estratégicas. A percepção global de que os EUA estão se fechando para o mundo pode ter repercussões duradouras, limitando a influência do país em fóruns internacionais e na resolução de crises globais. A longo prazo, tal isolamento pode levar a uma diminuição da competitividade econômica e da capacidade de liderança global dos Estados Unidos.

As restrições de viagem de Trump, embora apresentadas como baluartes da segurança, são vistas por muitos como medidas que podem, de fato, enfraquecer o país. A complexa teia de relações internacionais, inteligência e economia exige uma abordagem mais matizada do que proibições generalizadas. Olhando para o futuro, o sucesso da segurança nacional dos EUA dependerá de uma reavaliação dessas políticas, buscando soluções que promovam a segurança sem sacrificar os valores fundamentais de inclusão e cooperação global.