Um satélite da NASA capturou uma visão sem precedentes de um tsunami gigante no Pacífico, revelando que essas ondas são muito mais complexas e dispersas do que os cientistas imaginavam. A descoberta, impulsionada pelo satélite SWOT, desafia modelos tradicionais e pode transformar a previsão de desastres.
O evento ocorreu após um poderoso terremoto de magnitude 8.8 na zona de subducção Kuril-Kamchatka, um dos maiores registrados globalmente desde 1900. Lançado em dezembro de 2022, o satélite Surface Water Ocean Topography (SWOT), uma missão conjunta da NASA e da agência espacial francesa CNES, estava em posição ideal para observar o fenômeno.
Originalmente projetado para mapear a água superficial da Terra, o SWOT proporcionou a primeira medição de alta resolução de um tsunami de zona de subducção a partir do espaço, oferecendo um ‘novo par de óculos’ para os pesquisadores, conforme descrito por Angel Ruiz-Angulo, da Universidade da Islândia.
A complexidade das ondas de tsunami
Tradicionalmente, tsunamis de grande porte eram descritos como ‘não dispersivos’, ou seja, esperava-se que viajassem como uma única onda estável. No entanto, os dados do SWOT revelaram um padrão intrincado de ondas se espalhando, interagindo e se dispersando pelo oceano, uma observação que contradiz essa antiga premissa.
A análise conjunta das observações do satélite com dados das boias DART (Deep-ocean Assessment and Reporting of Tsunamis) confirmou a natureza mais desordenada do tsunami. Essas boias, estrategicamente posicionadas, permitiram aos pesquisadores refinar as estimativas do terremoto que gerou as ondas.
Angel Ruiz-Angulo e sua equipe, que passaram anos estudando dados do SWOT para entender características oceânicas cotidianas, foram surpreendidos pela oportunidade de registrar tal evento. A varredura de até 120 quilômetros de largura do SWOT forneceu uma resolução sem precedentes da superfície do mar.
Modelagem e o futuro da previsão
A comparação dos dados do satélite com simulações de computador mostrou que modelos de tsunami que incluíam a dispersão das ondas se alinhavam muito mais com a realidade. Isso indica que os modelos anteriores estavam ‘perdendo algo’, segundo Ruiz-Angulo, e que a variabilidade extra pode ter impactos não considerados na aproximação das ondas à costa.
Além disso, os pesquisadores notaram uma discrepância nos tempos de chegada do tsunami previstos por modelos anteriores e os registros das boias DART. A reanálise da origem do tsunami, usando a técnica de inversão com dados das boias, sugeriu que a ruptura do terremoto se estendeu por cerca de 400 quilômetros, mais ao sul do que se estimava.
Essa extensão de ruptura, significativamente maior do que os 300 quilômetros estimados por outros modelos, como mencionado na matéria do ScienceDaily.com, é crucial. Ela destaca a necessidade de recalibrar as simulações para incorporar essa complexidade recém-descoberta, aprimorando a precisão das previsões de tsunamis.
A capacidade do satélite SWOT de capturar a dinâmica complexa de um tsunami representa um avanço significativo para a sismologia e oceanografia. As descobertas, publicadas no The Seismic Record, sugerem que a próxima geração de modelos de tsunami precisará considerar a dispersão das ondas para oferecer alertas mais precisos e eficazes.
Este novo entendimento não apenas redefine nossa visão sobre como essas forças naturais se propagam, mas também reforça a importância de tecnologias de observação espacial para mitigar os riscos de desastres costeiros.











