Redes de sensores de terremoto podem ser a chave para rastrear detritos espaciais perigosos conforme reentram na atmosfera terrestre. Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins descobriram uma nova abordagem que utiliza sismômetros para detectar os estrondos sônicos criados por lixo espacial, oferecendo rastreamento em tempo real. Esta inovação, publicada em janeiro de 2026, promete proteger populações e facilitar a recuperação de fragmentos.
O problema do lixo espacial é uma preocupação crescente. Milhares de objetos feitos pelo homem orbitam a Terra, e quando pedaços desses detritos caem de volta à superfície, podem representar riscos significativos para as pessoas e o meio ambiente. Atualmente, cerca de 45.700 detritos maiores que 7,5 centímetros orbitam o planeta, com uma média de três reentradas diárias em 2024.
A verificação independente de onde esses objetos reentram, se se desintegram completamente ou atingem o solo, tem sido um desafio. A nova técnica proposta por cientistas, incluindo Benjamin Fernando da Universidade Johns Hopkins, busca preencher essa lacuna, fornecendo informações mais precisas e quase em tempo real do que os métodos tradicionais de rastreamento orbital.
Como sismômetros decifram a queda de detritos
A abordagem inovadora explora um fenômeno físico simples: ao mergulhar na atmosfera terrestre, o lixo espacial viaja em velocidades hipersônicas, superando a velocidade do som. Essa velocidade extrema gera estrondos sônicos, ou ondas de choque, que são detectadas por redes de sismômetros, os mesmos instrumentos projetados para registrar movimentos do solo causados por terremotos.
Benjamin Fernando e Constantinos Charalambous, do Imperial College London, testaram o método analisando a reentrada do módulo orbital Shenzhou-15 da China, ocorrida em 2 de abril de 2024. Este objeto, com cerca de 1,06 metro de largura e pesando mais de 1,5 tonelada, era grande o suficiente para causar perigos.
Utilizando dados de 127 sismômetros no sul da Califórnia, a equipe calculou a velocidade e a trajetória do módulo Shenzhou-15. Ele cruzou a atmosfera a aproximadamente Mach 25-30, movendo-se a cerca de 7,8 quilômetros por segundo sobre Santa Bárbara e Las Vegas. A força dos sinais sísmicos permitiu estimar a altitude do módulo e determinar quando ele se fragmentou.
As medições sísmicas revelaram que os detritos viajaram cerca de 40 quilômetros ao norte da trajetória prevista pelo Comando Espacial dos EUA, que depende de rastreamento orbital antes da reentrada. Essa disparidade sublinha a necessidade de ferramentas de rastreamento mais refinadas para a conscientização situacional espacial.
A urgência do rastreamento preciso de lixo espacial
O rastreamento preciso do lixo espacial é crucial por diversas razões. Quando os detritos queimam durante a descida, podem liberar partículas tóxicas que permanecem na atmosfera por horas, derivando para outras regiões com as mudanças climáticas. Conhecer a trajetória exata ajuda a entender onde essas partículas podem viajar e quais populações podem ser expostas.
Além disso, o rastreamento quase em tempo real possibilita a recuperação mais rápida de detritos que sobrevivem à queda. A agilidade na recuperação é fundamental, especialmente porque alguns objetos podem conter materiais perigosos. Um exemplo notório é o da espaçonave russa Mars 96, em 1996.
Embora se pensasse que a Mars 96 havia queimado completamente, sua fonte de energia radioativa pousou intacta no oceano. Anos depois, cientistas encontraram plutônio artificial em uma geleira no Chile, acreditando ser evidência de que a fonte de energia se rompeu e contaminou a área. Casos como este, e o acidente com Césio-137 em Goiânia no Brasil, reforçam a necessidade de ferramentas adicionais de rastreamento.
A capacidade de usar sensores de terremoto para ouvir e rastrear o lixo espacial oferece uma nova e poderosa ferramenta para gerenciar os riscos crescentes dos detritos em reentrada. À medida que o número de lançamentos de satélites continua a aumentar, a proteção da vida na Terra e do meio ambiente depende de nossa capacidade de monitorar e responder a esses objetos em queda com precisão e rapidez. A pesquisa publicada na revista Science, conforme divulgado pela ScienceDaily, representa um passo vital nessa direção.












