A PlayStation Store experimentou uma limpeza notável recentemente, com a remoção de cerca de 1.200 jogos de um único desenvolvedor, a ThiGamesDE. Essa ação, embora significativa, levanta a questão de ser um caso isolado ou o início de uma postura mais rigorosa das plataformas contra o shovelware, um problema que assola a indústria de games e compromete a experiência de milhões de jogadores.
O conceito de shovelware, que remonta aos anos 90 com a proliferação de CD-ROMs repletos de programas de baixa qualidade, descreve jogos produzidos com mínimo esforço e baixo orçamento, muitas vezes utilizando ativos genéricos ou reciclados. Seu objetivo principal é o lucro rápido, explorando brechas como sistemas de troféus fáceis ou imitando títulos populares para atrair jogadores desavisados.
Com a ascensão da distribuição digital, as barreiras de entrada no mercado diminuíram drasticamente, permitindo que esses títulos de qualidade questionável inundassem as lojas virtuais. Esse cenário tem sido desastroso para a descoberta de jogos legítimos, já que projetos desenvolvidos com paixão e criatividade se perdem em meio a um mar de clones oportunistas e conteúdo de baixo valor.
A ascensão da IA e a maré do shovelware
O problema do shovelware, que já era grave, ganha contornos ainda mais preocupantes com o avanço da inteligência artificial generativa. A IA se tornou uma ferramenta poderosa para a criação acelerada e barata de ativos visuais, códigos e até mesmo conceitos de jogos inteiros, tornando a produção de títulos de baixa qualidade mais eficiente do que nunca.
Especialistas alertam que a IA generativa é um “sonho realizado” para os produtores de shovelware, facilitando a criação de jogos “meio-prontos” que parecem profissionais o suficiente para enganar consumidores e gerar lucros mínimos. A estimativa é que entre 80% e 90% da produção atual de jogos já envolva o uso de IA, impactando desde a arte até o design.
Curadoria em crise: o papel das plataformas
Plataformas como PlayStation, Nintendo eShop e Steam são frequentemente criticadas por sua inação diante da crescente avalanche de shovelware. Embora console holders, em particular, prometam aos consumidores um “jardim murado” de conteúdo curado, a realidade é que suas lojas estão sufocadas por títulos de pouca qualidade.
A moderação de conteúdo é uma tarefa complexa e custosa, exigindo julgamento humano e investimento em equipes qualificadas, algo que muitas empresas relutam em fazer. Não há um processo algorítmico perfeito capaz de identificar shovelware sem, ao mesmo tempo, prejudicar jogos indie legítimos ou gêneros de nicho, como aponta uma análise da GamesIndustry.biz.
A facilidade de obter troféus em muitos desses jogos desvaloriza o sistema de conquistas, frustrando jogadores que dedicam tempo e esforço em títulos genuínos. A remoção recente de mais de mil jogos pela Sony, embora tardia para muitos, sinaliza uma possível mudança de postura, mas a comunidade espera por ações mais abrangentes e consistentes.
O desafio é contínuo e exige uma resposta robusta. As plataformas precisam reafirmar seu compromisso com a qualidade, implementando políticas de curadoria mais rigorosas e investindo em soluções que protejam tanto os desenvolvedores que buscam inovação quanto os consumidores em busca de experiências de jogo autênticas. O futuro da descoberta de jogos e a integridade da indústria dependem dessa vigilância ativa.







